A Otan, que já lidera ações militares no Afeganistão, prepara-se para desempenhar um papel importante na coordenação das operações na Líbia, com o risco de dar um aspecto ainda mais ocidental à intervenção e de se indispor com os países árabes, já relutantes em aderir às missões.

A posição exata da Aliança Atlântica nos planos começa lentamente a ser estabelecida, após dias de negociações, muitas vezes ásperas, entre governos divididos em relação à conduta das operações, mas nada está fixado ainda.

Durante uma nova reunião nesta quarta-feira, os embaixadores dos 28 países membros da Otan não conseguiram chegar a um acordo para que a Aliança assuma o comando da zona de exclusão aérea sobre a Líbia. "Não houve acordo e as negociações prosseguem" com uma nova reunião prevista para quinta-feira, indicou um diplomata.

Os planos militares já foram estabelecidos. Se uma autorização for dada, a coordenação será efetuada da base da Otan em Nápoles (sul da Itália), segundo uma fonte diplomática francesa. A Otan já aceitou na terça-feira ficar à frente do monitoramento do embargo de armas contra a Líbia.

Vários países membros colocaram à disposição da Aliança Atlântica um total de 16 navios e submarinos, sendo cinco navios e um submarino apenas da Turquia, anunciou nesta quarta-feira um general da Otan. Ancara se recusa, entretanto, a participar de qualquer bombardeio contra a Líbia.

As divergências persistem também entre aliados sobre a questão da responsabilidade em eventuais ataques aéreos à Líbia. A França, que está à frente da ofensiva com Londres e Washington, queria que os membros da coalizão mantivessem o controle dos bombardeios. Paris não quer depender de países como a Turquia e a Alemanha, dois membros da Aliança que já manifestaram fortes reservas sobre a intervenção na Líbia e se opõem ao recurso à força contra tropas terrestres.

A Otan desempenhará um papel "útil de planejamento e de condução operacional" para estabelecer uma zona de exclusão aérea, assegurou nesta quarta-feira o chefe da diplomacia francesa, Alain Juppé. "Não é (a Otan) que exercerá a condução política da operação", disse a um comitê reunindo os ministros das Relações Exteriores dos Estados - incluindo os árabes - que participam da intervenção.

Paris e Washington anunciaram na terça-feira à noite que haviam conseguido chegar a um acordo sobre o papel da Otan na coalizão, mas o apresentaram de formas diferentes em muitos aspectos. Para a Casa Branca, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha chegaram a um acordo para que a Otan possa desempenhar um "papel-chave" no comando da operação. A Presidência francesa fala apenas "da utilização das estruturas de comando da Otan em apoio à coalizão".

Sem um comando unificado, as operações envolvendo diversos países levam a Otan a assumir a liderança da intervenção. A Itália, que havia colocado suas bases aéreas à disposição, ameaçou retomar o controle. A Bélgica, o Canadá, a Dinamarca e a Noruega também querem uma transferência de comando para a Otan.

Oslo anunciou nesta quarta-feira que seus seis F-16 mobilizados para a Líbia seriam colocados sob comando americano. No momento, os Estados Unidos estão a cargo da coordenação das missões aéreas na Líbia a partir de seu QG na Alemanha. Mas Barack Obama está disposto a não se envolver em uma terceira guerra em terras muçulmanas depois do Iraque e do Afeganistão e pretende passar rapidamente o bastão para uma outra estrutura de comando, para retirar seu país.

Líbia: de protestos contra Kadafi a guerra civil e intervenção internacional
Motivados pela onda de protestos que levaram à queda os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em meados de fevereiro para contestar o líder Muammar Kadafi, no comando do país desde a revolução de 1969. Mais de um mês depois, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas.

A violência dos confrontos entre as forças de Kadafi e a resistência rebelde, durante os quais milhares morreram e multidões fugiram do país, gerou a reação da comunidade internacional. Após medidas mais simbólicas que efetivas, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a instauração de uma zona de exclusão aérea no país. Menos de 48 horas depois, no dia 21 de março, começou a ofensiva da coalizão, com ataques de França, Reino Unido e Estados Unidos.