A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) condenou nesta quarta-feira a violência contra os jornalistas na Líbia e lamentou que a morte de um cinegrafista da emissora Al Jazeera no sábado tenha levado essas intimidações "a um novo extremo". "Aqueles que exercem a autoridade na Líbia têm que perceber que semelhantes ações não acabarão com seus problemas", diz em comunicado a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova.
Em sua nota, ela afirma que a morte do cinegrafista "é o último ato de uma série de ataques violentos, agressões e detenções de jornalistas na Líbia". A diretora ressaltou que esse assassinato evidencia os riscos que os jornalistas estão correndo no país, onde, segundo a Unesco, as autoridades bloquearam o sinal dos meios de comunicação estrangeiros e "incitaram a violência" contra a imprensa.
Ela condenou ainda a detenção do enviado especial à Líbia do jornal O Estado de São Paulo, Andrei Netto, detido pelas forças de segurança durante oito dias, e as agressões sofridas por três jornalistas da emissora pública britânica BBC durante 21 horas em 7 de março.
Líbios enfrentam repressão e desafiam Kadafi
Motivados pela onda de protestos que levaram à queda os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país há quase um mês para pedir a renúncia do líder Muammar Kadafi, no comando do país desde a revolução de 1969. Entretanto, se tunisianos e egípcios fizeram história através de embates com as forças oficiais e, principalmente, protestos pacíficos por democracia, a situação da Líbia já toma contornos bem distintos.
Diferentemente da queda de Hosni Mubarak, cujo símbolo foi a aglomeração sistemática de centenas de milhares de manifestantes no centro do Cairo, a contestação de Kadafi tem levado a Líbia a uma situação próxima de uma guerra civil. Após a realização de protestos em grandes cidade, como Trípoli e Benghazi, o litoral mediterrânico da Líbia virou cenário de uma batalha diária entre as forças do coronel e a resistência rebelde pelo controle das cidades, como Sirte - cidade natal de Kadafi - e a petrolífera Ras Lanuf.
Não há números oficiais, mas estima-se que mais de mil pessoas já tenham morrido desde meados de fevereiro. A onda de violência, por sua vez, gerou um êxodo de mais de pelo menos 100 mil pessoas, muitas das quais fogem pelas fronteiras egípcia e tunisiana. Esses números, aliados à brutalidade dos confrontos - como, por exemplo, o bombardeio a cidades rebeldes - vêm mobilizando lideranças da comunidade internacional, que cogitam a instauração de uma zona de exclusão aérea na Líbia, mas ainda não acenam para uma intervenção no país.