Funcionários do governo americano, entre eles o embaixador dos EUA na Líbia, Gene Cretz, se reuniram nos últimos dias com integrantes do Conselho Nacional de Transição liderado pela oposição no país do norte da África, informou nesta terça-feira o Departamento de Estado.

As reuniões, que ocorreram no Cairo (Egito) e em Roma (Itália), foram as primeiras feitas com os EUA desde que o órgão opositor foi constituído com o objetivo de derrubar o ditador Muammar Gaddafi.

O porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, não quis identificar as pessoas que mantiveram conversas com Cretz e assegurou que o objetivo dos encontros foi "conseguir um maior entendimento do que está ocorrendo" no país árabe.

"Cretz se reuniu nos últimos dias com funcionários do governo da Itália e do Egito, mas também com membros da oposição da Líbia", disse Crowley em sua entrevista coletiva diária.

Até agora, o Departamento de Estado tinha mostrado interesse em lidar com o movimento opositor no país, mas ao mesmo tempo se mostrava cético sobre sua organização ou a quantidade de apoio com que contavam na Líbia.

Em relação a isso, Crowley apontou que não corresponde aos EUA "escolher os protagonistas neste esforço" de transição, por isso tentam se relacionar com "uma ampla categoria de líderes e de pessoas que podem influir nos eventos na Líbia", incluindo opositores que não pertencem ao Conselho Nacional de Transição.

"Estamos contatando uma ampla variedade de líderes, aqueles que entendem e que podem potencialmente influenciar nos eventos na Líbia", disse à imprensa o porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley.

O Conselho Nacional de Transição, com sede em Benghazi, é liderado pelo ex-ministro da Justiça da Líbia Mustafa Abdul Khalil, que desertou do regime após o início da violenta repressão contra opositores de Gaddafi.

Crowley indicou, além disso, que o Ministro de Relações Exteriores da Líbia, Moussa Koussa, ligou para o secretário adjunto de Estado para Assuntos de Oriente Médio, Jeffrey Feltman, para falar sobre "a situação na Líbia do ponto de vista do regime de Gaddafi, em uma conversa "muito breve".

Os EUA continuam com sua missão humanitária na fronteira entre Líbia e Tunísia, na qual investiram US$ 30 milhões para comprar material, garantir serviços básicos de emergência e transportar cidadãos aos seus países.

ZONA DE EXCLUSÃO AÉREA

Em outro esforço diplomático, o país também discute com aliados diversas opções para lidar com a crise líbia.

Nesta terça-feira, o presidente Barack Obama e o premiê do Reino Unido, David Cameron, concordaram em planejar um "completo espectro de possíveis respostas" à Líbia, incluindo um embargo de armas e a imposição de uma zona de exclusão aérea no país.

A Casa Branca enfatizou a expressão "completo espectro de respostas" em um comunicado sobre a conversa telefônica entre os dois líderes nesta terça-feira, destacando o potencial de uma resposta militar dos EUA e de seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) enquanto a Líbia dá sinais de ir em direção a uma guerra civil.

O comunicado diz que Obama e Cameron concordaram que o objetivo deve ser acabar com a violência e a saída do ditador Gaddafi "o mais rápido possível".

Os dois "concordaram em prosseguir com o planejamento, incluindo na Otan, de um completo espectro de possíveis respostas, incluindo vigilância, assistência humanitária, aplicação do embargo de armas e uma zona de exclusão aérea", diz o texto.

Impor uma zona de exclusão aérea provavelmente envolve um complexo comprometimento do poderio militar americano, mas cada vez mais pedidos por isso tem sido feitos, já que forças leais a Gaddafi atacam rebeldes com ataques aéreos.

As estimativas de mortes variam de centenas a milhares.

Os principais conselheiros de segurança nacional de Obama irão se reunir nesta quarta-feira para delinear quais ações são realistas e possíveis para pressionar Gaddafi a acabar com a violência e deixar o poder, disseram autoridades.

A reunião, que será realizada na Casa Branca, irá examinar as ramificações de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e potenciais opções militares, apesar de a decisão final ficar com Obama, de acordo com as fontes, que falaram sob condição de anonimato.

A secretária de Estado, Hillary Clinton, o conselheiro de Segunda Nacional, Tom Donilo, e o chefe da CIA (agência de inteligência americana), Leon Panetta, estão entre os que devem participar das discussões.

Nesta terça, em entrevista a uma emissora de TV, Hillary afirmou que qualquer imposição de uma zona de exclusão aérea na Líbia deve ter apoio internacional e não ser um esforço liderado pelos Estados Unidos.

"Queremos ver a comunidade internacional apoiar isso", afirmou à Sky News quando questionada sobre o tema. "Acredito que é muito importante que isso não seja um esforço liderado pelos EUA porque isso vem do próprio povo da Líbia. Isso não veio de fora, isso não veio de alguma potência ocidental ou algum país do golfo dizendo 'Isso é o que você deve fazer'."

Forças leais ao ditador líbio estão tentando acabar com uma revolta contra o regime do mandatário, que já dura 42 anos. Hillary disse que a crise pode ser demorada.

"Pedimos ao coronel Gaddafi para sair. Acreditamos que ele totalmente perdeu qualquer legitimidade ao poder. Quando um líder se vira contra seu próprio povo, isso é o fim. Mas sabemos que há uma longa estrada pela frente para ser capaz de tentar resolver isso."

"Gostaríamos de ver isso [a crise líbia] resolvida pacificamente. Gostaríamos de vê-lo [Gaddafi] ir pacificamente. Gostaríamos de ver um novo governo chegar pacificamente", afirmou a chefe da diplomacia americana.

"Mas isso não é possível. Então, vamos trabalhar com a comunidade internacional. Agora há países que não concordam com isso e eu acho que é importante que a ONU [Organização das Nações Unidas] tomasse essa decisão, não os EUA."

O Reino Unido e a França estão trabalhando no Conselho de Segurança da ONU em uma resolução para estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia que poderia ser aplicada, caso as condições pedissem por isso.

Mas aliados ocidentais aparentam estar divididos sobre o tema. Há dúvidas também se China e Rússia apoiariam a decisão.