Fathi Terbel, membro do comitê popular que controla a cidade de Benghazi e um dos líderes do levante popular na Líbia, afirmou neste sábado que as forças leais ao ditador Muammar Gaddafi controlam somente 15% do território nacional.

Nesta sexta-feira (25), os países da União Europeia (UE), em uma reunião em Bruxelas , decidiram impor um embargo à venda de armas, congelar os bens de Gaddafi e proibir viagens à Líbia. Nenhum país apresentou objeções à proposta de sanções, que será formalizada na semana que vem.

Já o Conselho dos Direitos Humanos da ONU recomendou a suspensão do país "tendo em vista as flagrantes e sistemáticas violações de direitos humanos pelas autoridades líbias". Em seu discurso, a embaixadora dos Estados Unidos, Eileen Chamberlain Donahoe, disse que caso a Líbia continue no CDH, o órgão perderá credibilidade e terá seu mandato e seus objetivos questionados.

Os Estados Unidos ainda consideram a possibilidade de fechar a embaixada do país em Trípoli em meio à violência entre os partidários do líder líbio


Governos e organismos internacionais

Em sua primeira declaração sobre a situação na Líbia, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou na quarta-feira (23) que o "banho de sangue" e o "sofrimento" no país são "inaceitáveis", precisam acabar imediatamente e informou que deu instruções a seus assessores para que preparem todas as opções para fazer frente à situação no país norte-africano.

Já o presidente francês Nicolas Sarkozy, um dos que mais vem pedindo penalidades ao país africano devido à violência, condenou "o uso inaceitável da força" contra os manifestantes na Líbia e pediu a "cessação imediata" da violência no país.

Também em represália ao governo de Gaddafi, o Peru anunciou que cortou os laços diplomáticos com a Líbia.

Fuga da população

Ao menos 30 mil pessoas, em sua maioria trabalhadores tunisianos e egípcios, já fugiram da Líbia, devido aos confrontos entre rebeldes contrários ao ditador Muammar Gaddafi e forças de segurança do regime líbio informou a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O país conta com um total de 1,5 milhão de imigrantes ilegais, muitos deles nativos de Egito, Tunísia, Sudão, Níger e regiões do Oeste e do 'chifre' da África, localizado no nordeste do continente.

De acordo com a organização, cerca 15 mil tunisianos, centenas de africanos, mil egípcios, 830 chineses e 300 líbios, a minoria, também teriam deixado o país.
Saída de brasileiros da Líbia

Governos e empresas estão organizando o resgate de cidadãos desde o início desta semana. Um grupo de quatro brasileiros retornou ao Brasil. Funcionários brasileiros das empresas Queiroz Galvão (148, entre empregados e familiares), Odebrecht e Petrobras (7, sendo quatro funcionários e três familiares), acompanhados de seus familiares, também já estão à caminho do Brasil. O resgate está sendo feito com barcos privados e voos fretados.

Cerca de 100 britânicos já foram resgatados pelo governo do Reino Unido. Países como Itália, França e Estados Unidos também já iniciaram o transporte de seus cidadãos de volta ao país natal.

Nesta sexta, o segundo avião fretado pela construtora Odebrecht pousou às 8h (12h de Londres) de hoje na Ilha de Malta, no Sul da Europa, levando outros 441 funcionários da empresa e parentes que estavam na Líbia. De acordo com comunicado divulgado pela companhia, desse grupo 270 eram naturais do Vietnã, 170 da Tailândia e uma do México.
Renúncias

Altos dirigentes líbios, ministros, diplomatas e militares já renunciaram ou desertaram do regime do general Muammar Gaddafi para expressar sua oposição à violenta repressão contra os manifestantes contrários ao poder.

Nesta sexta-feira (25) foi a vez de Kadhaf Al Dam, conselheiro e primo do presidente, anunciar seu desligamento “de todas as funções no seio do regime líbio para protestar contra a gestão da crise líbia”, segundo o comunicado oficial.

Os ministros da Justiça, Mustafah Abdel Jalil, e do Interior, Abdel Fatah Yunes, o procurador-geral, Abdul-Rahman al-Abbar; Youssef Sawani, assessor do filho de Kadafi; e Nuri al-Mismari, chefe de cerimonial de Kadafi também já abriram mãos de seus cargos.

Os embaixadores líbios na Austrália, Bangldesh, China, França, Índia, Jordânia, Indonésia e Portugal renunciaram aos cargos. Os da Áustria, Egito, Malásia e EUA não abandonaram os cargos, mas repudiaram a violência usada para reprimir os protestos contra o governo.

Situação das cidades líbias

Os opositores do regime já tomaram controle de uma faixa de território que vai da fronteira com o Egito, passa por metade da costa de 1.600 km no Mediterrâneo ao porto de Breqa, a apenas de 710 km leste de Trípoli, capital líbia. Da fronteira entre Líbia e Egito até Tobruk, bandeiras da independência tremulam nos edifícios oficiais e as delegacias estão vigiadas por civis, alguns deles armados.

Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, também está sob controle da oposição segundo agências de notícias internacionais. Lá, os manifestantes formaram um conselho com 13 membros para avaliar as prioridades em áreas como saúde, educação, segurança pública e serviços públicos, afirmou o porta-voz da Coalizão, Abdelhafiz Ghoqa.

Os manifestantes avançam ainda por algumas cidades no noroeste do país. Milicianos e forças de Gaddafi foram expulsos nesta quinta-feira por rebeldes das cidades de Zawiya e Misrata.

Um comunicado publicado no site oficial da cidade de Misrata informava que a população local havia tomado o controle local. Foram postadas fotos na internet mostrando os edifícios públicos cobertos com a bandeira adotada pelo movimento antigoverno, com as cores verde, preto e vermelho. Fontes disseram à agência de notícias Reuters que as operações no porto haviam sido suspensas.
Número de mortos

O filho do líder libio, Muamar Gaddafi, Saif al Islam, indicou nesta sexta-feira (25) a um canal turco que a violência em seu país deixou 242 mortos, ou seja, menos que o informado pelo balanço oficial do governo, que apontava 300 mortos.

De acordo com o último levantamento da Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH), pelo menos 640 pessoas já morreram nos protestos na Líbia. A organização menciona 275 mortos em Trípoli, capital líbia, e 230 na cidade de Benghazi, epicentro dos protestos.

Os números da ONG são diferentes dos estimados por outras organizações independentes e até mesmo pelo governo líbio. A falta de precisão nas informações deve-se às restrições impostas a jornalistas e meios de comunicação no país. As principais fontes sobre o número de vítimas fatais têm sido hospitais e médicos que trabalham no atendimento dos feridos.


Medidas de Gaddafi

Sob pressão para renunciar e com rebeldes controlando algumas das principais cidades da Líbia, Gaddafi, anunciou nesta quinta-feira a distribuição de recursos em dinheiro para as famílias líbias e o aumento de salário para os funcionários públicos.

Segundo o governo, cada família receberá pagamentos equivalentes a cerca de US$ 400 para compensar o aumento nos preços dos alimentos.

Já o salário mínimo será praticamente dobrado, e para os trabalhadores do serviço público o aumento será de até 150%.
Economia

A produção de petróleo e gás movem a economia da Líbia. Em tempos normais, o país produz 1,6 milhão de barris de petróleo o que deixa a Líbia na 17ª posição do ranking mundial, mas a produção caiu 6% desde o início dos confrontos. A queda, no entanto, ainda não é suficiente para impactar a oferta mundial.

"Os países afetados têm uma participação relativamente pequena nas trocas comerciais internacionais", avaliou o especialista Klaus Abberger.

Segundo ele, a atual situação não interrompeu o processo de recuperação global. No entanto, isso pode mudar caso seja interrompido o comércio através do canal de Suez, que é estrategicamente tão importante, pois os carregamentos de petróleo e exportações da China não chegariam mais à Europa pela rota marítima mais rápida.