Goretti Brandão
O rio está dormindo.
Quieto.
Mas todo mundo que mora perto dele sabe; o rio é uma pessoa. Um ente de Deus. Agora de madrugada, faz silêncio, que é para não quebrar o espelho cristalino de suas águas e fragmentar a lua que dorme sobre ele. Deitado, se acomoda em todos os lugares do seu leito e lá pela metade, se abisma numa fundura de não se medir, porque ali está a sua alma de rio, alma feita de peixes, de lodo, dos mitos de suas mulheres encantadas, diáfanas das transparências das águas.
Tudo dorme.
O rio dorme, como um menino grande, de pijama cinza. Dormem os peixes, dorme o sol atrás das serras, dormem os homens e a cidade. Dorme o menino grande de pijama cinza. Há, porém, a pulsação serena do coração das águas, que trepida bem debaixo das canoas o rumor do seu pulsar, em marulhadas que vão e vêm, se ordenando.
Qualquer movimento, qualquer pequenina pedra, pode acordar o sonho das águas e o sono dos peixes. Por isso as canoas vigiam a madrugada, com seus olhos agudos de proa, o descanso do rio, à hora da lua erguer-se, que o sol acordando, vai subir correndo a serra, deixando cair nas águas o ouro dos seus amarelos, até fixar-se no teto da cidade. As canoas em alerta são os anjos das águas.
Por enquanto nada é barulho.
Sobre a areia, as redes esticadas entre paus tortos, são amigas da fome dos homens. Tão grandes; ameaçadoras de peixes, numa fantasmagoria de braços rendados, que tremulam levemente, também cinzentas, dos sopros curtos do vento. A superfície das águas é lugar de remanso. Ele, longo, encomprida-se ainda mais no escuro, margeando as serras, condensando-se por entre pequenos montes. Parece rígido, como chão espelhado de cera, firme, que se pode andar em cima.
Então respira.
Vem de uma outra inalação, emprestada das guelras dos surubins, mandins, das traíras, num fôlego de peixes aflitos da hora da pesca, da vez de esperar que os homens entrem nas águas e agitem o sono do rio, no seu dormir de água doce. Os peixes temem. Acordam à hora, onde os primeiros fios dourados de luz frisarão as águas. Correrão para as locas em cardumes, numa corrida desembestada. Veja aqui... Veja aqui... Há um primeiro friso de ouro, bem naquela prega da água. Ali, as serras se despem da hora cinza da noite, pelos tons amarelados das primeiras pinceladas da luz.
O rio vai acordar.
Agita-se, movimenta as margens. Abre grandes olhos de água quase azul e se espreguiça sobre a areia aspergindo-se, tentando ganhar espaços, para tornar a perdê-los na volta. Bem adiante estão o Morro do Cavalete, as mangueiras, as casas da encosta com seus quintais, os chiqueiros de porcos, ainda acinzentados dos restos da cor parda da noite. Tudo contornado da primeira oferta da luz do dia. O sol se eleva; estrela incandescente; lançando cores em todo canto.
Amanhece.
O rio acordado ouve os rumores dos peixes e expandindo-se, cresce nas margens o volume dos seus braços de água. Ele, que agora é vestido de azul, em imenso menino de pernas longas, fala a si mesmo, à suavidade das marolas cristalinas. Cala-se, para escutar os sons da cidade, que chegam até ele. Ouve os seus ecos, vê a gente que passa. Observa o sobrado da Rua da Frente, quase morto, definhado à ação do tempo, sem telhado, sem paredes internas a dividirem seus cômodos. Tudo invadido pelo matagal.
O rio pensa a alma da cidade. Pensa para além do pensamento humano, à sua memória, o seu nascimento à sua margem esquerda, à sua história de amor, não menor que a sua atração pela lua, donde lhe nascem as areias. Não diferente dos seus desejos de cópula com a Iara; Mãe D’água, útero dos seus peixes, à vida de suas águas. A cidade vai
acordando aos poucos.
Ali, imperiosa, sua amante do cais, de pernas à mostra, numa curta saia de coqueiros e tamarineiros, com seus cabelos cor do tempo de verão, com seu perfume de poeira e mormaço; seu cheiro forte de suor vencido. Seu oposto ensolarado na quentura dos mistérios sólidos incompletos de suas ruas de paralelepípedos e tijolos, para os inacabados mistérios líquidos, molhados do rio e suas águas. Um ao outro, que se amolecem e endurecem em mornidão; paralelamente inseparáveis...
Das suas águas, as piabas ariscas, quase neuróticas, duma ligeireza sem razão, enchem a beirada dos aperreios de nadar desafiando a areia, que fazem o rio sorrir de cócegas pelos lados das margens, entre os corpos lodacentos das canoas. Depois fica sério. Pressente a aproximação de gente. Reflui, afasta-se da margem, deixando presença de si na areia molhada. Respira forte, agora dos pulmões do vento e escuta vozes... Vozes de alegria. Voz de água e areia, junto com a voz da alegria das mulheres lavadeiras, tudo misturado.
Timbre de canto, que os elementos e as mulheres se põem a cantar em coro! Ele retorna à margem e canta também... Canta a música aprendida delas, que chegaram com suas bacias de roupas, para encherem as águas de nuvens, feitas das espumas de seus sabões. O coração das águas bate forte. O rio agita-se, chama o vento que levanta a areia, brinca com as roupas estendidas nela, que ganham pernas que correm, depois, asas que voam, como espíritos coloridos.
Então, solta no ar a sua voz de rio, em murmúrios que cantam em partituras de notas dissonantes, sua entoação de areia e água, a voz dos peixes, dos canoeiros, das mulheres úmidas da cintura para baixo, das suas roupas molhadas nele, para seus encantamentos de rio que as espelha e a seus sexos por baixo das saias, mexendo em suas intimidades, enquanto canta em ritmo das suas marulhadas, enchendo de prazer fecundado, a voz das lavadeiras. Vozes rampeiras chorosas, gemidas, agudas, que cantam às suas águas, as melodias que falam nele.
Essas mulheres, as mesmas, para outros meios prazeres curiosos dos meninos atrás das canoas, à hora dos seus banhos desnudos. Ali estão alegrando o rio, com seus grandes seios murchos, caídos até as cinturas. Banham-se as mulheres, no rio dos pescadores, dos surubins, das pilombetas. No rio das embarcações que atiçam as velas levantadas, estufando barrigas, abrindo os caminhos, imensos em suas águas, seus remansos, seus peraus; caminho falso que os tupis chamavam caminho de engolir gente__ astúcia do Nego D’água__ das mulheres mitológicas, submergindo as gentes para seus abismos, lugar da alma do rio.
Rio dos homens, de suas redes, da sua sede de beber das águas, das bóias, dos mergulhos, dos passeios. Das areias para fazer castelos, dos grandes buracos feitos nas margens, para se entrar neles brincando... Rio São Francisco, tomado dele mesmo, que vomita garrafas e copos descartáveis, que luta contra cacos de vidro, que morre devagarzinho, a sua alma de leito a ser transposto...
Onde guardarei meu medo lúdico da Iara, o couro pintado do surubim, a alegria nervosa das piabas, a voz aguda das rampeiras, a sua voz mansa de rio cantante, a sua pessoa-entidade? Coração de rio, rio de peixes... Rio de dentro de mim, transbordando em águas que gritam. Inseparável da minha alma. Meu amor... Meu rio; Velho Chico.
* Artigo escrito em 2005, sobre a vida do Rio São Francisco, em minha cidade natal, Pão de Açúcar-AL.