Goretti Brandão

Acompanho todos os dias o blog da jornalista Olívia de Cássia. Aprecio a maneira como ela o conduz, os temas gerais que ela, uma experiente profissional, aborda. Gosto, sobretudo, de quando ela emite seus pontos de vista, reflexões pessoais, como sendo a sua forma de se colocar diante do mundo, dela mesma, tanto como jornalista, tanto quanto pessoa. Emitir opiniões próprias que divirjam das opiniões generalizadas e que é maioria, é, infelizmente, correr o risco de ser mal interpretada.

Ao visitar o seu blog hoje, me deparei com um texto bem intrigante. Nele, Olívia diz que: “Um moço internauta leu um dos meus escritos postado no site Portal Literal, onde tenho inscrição, artigo que publiquei no blog e que também foi publicado na Tribuna Independente do domingo passado, 13, onde eu defendi o resgate das tradições, critiquei as músicas de péssimo gosto tocadas por aí, inclusive as que detratam as mulheres e são preconceituosas”. O rapaz que leu meu texto no Portal Literal achou ruim quando eu sugeri que essas músicas, tipo aquela que chama as mulheres de cachorras, deveriam ser tratadas com restrições. Ele avaliou que eu estivesse defendendo a volta da censura e desceu a lenha na minha fala".

Solidária à jornalista, fiz um comentário em seu blog e o transcrevo, com pequenas alterações, para o Ensaio Geral, onde faço também, as minhas considerações pessoais a respeito do assunto por ela abordado:

É interessante como a unilateralidade - como premissa para julgamentos feitos por muitas pessoas -, faz com que pontos de vista sejam sentenciados de forma, claro, unilateral. A idéia que se tem de que o que é NOVO é sempre bom e MODERNO, vem associada de maneira errônea àquilo que se inscreve no mundo de hoje, como modernismo.

Acredita-se que quem não estiver 'na onda' é retrógrado, contrário ao progresso, conservador e coisa e tal. As pessoas por aí, defendem, até sem saber, os produtos da Indústria Cultural, criados dentro do seu enredo engenhoso, de fazer com que tudo seja consumido, sem que haja um questionamento sobre o que se está consumindo. Ser moderno não implica em ser unilateral ou aceitar o que todo mundo acha bom, normal ou natural, para não dizer, ser alienado da sua capacidade de ouvir, entender e selecionar o que é moderno e bom, daquilo que alcança popularidade e é ruim...

Concordo com Olívia, quando ela fala que existem inúmeras verdades. E que a gente precisa respeitar as demais verdades de cada um. A título de informação, Adorno, filósofo e sociólogo alemão, tem um texto muito bom sobre o assunto intitulado: O Fetichismo na Música: A Regressão da Audição. Defender o ponto de vista dela, não significa apenas defender uma posição sua, mas junto a Olívia, perceber e aguçar os sentidos, para o que essas mensagens ajudam a divulgar.

Uma excelente maneira de avaliação sobre a influência dessas músicas no comportamento das pessoas. O desvirtuamento da cultura musical, a pobreza gramatical, tudo isso revela um problema maior, que é o da inconsciência coletiva, cada vez menos consciente e consumidora de conceitos bem vulgares, que no caso de muitas músicas, realmente, servem para denegir a imagem da mulher.

Numa época onde se proclama e é conclamado, exaustivamente, direitos iguais entre os sexos, esse expediente, trata-se de um produto ‘cultural’ nocivo. E para quem observa e avalia o que acontece na sociedade, seus rumos, suas tendências, essas músicas se mostram como a ponta de um iceberg. A gente sabe o quanto essas mensagens trabalham com a repetição e promovem a reprodução da negação à igualdade, ao direito e ao respeito que as mulheres, nós, somos merecedoras.

E não é apenas por sermos mulheres, tampouco fazendo discurso conservador para uns ou feminista, para outros. Não. Não é isso, mas, por sermos seres de carne e osso. Não somos mercadorias em prateleiras. Substituíveis, de pouco ou nenhum valor, descartáveis, como nos oferta para o mercado de consumo, a propaganda do Novo, do Bom e do Moderno, que à maioria, ensurdece, emudece, cega e desumaniza.