A Tunísia reagiu com irritação à hipótese de o governo italiano enviar policiais ao norte da África para tentar conter o fluxo de migrantes que tentam chegar clandestinamente à Itália.

O ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, fez essa sugestão em resposta ao que qualificou de "êxodo bíblico" que levou mais de 5,5 mil clandestinos a desembarcar desde a semana passada na ilha italiana de Lampedusa vindas da vizinha Tunísia.

O chanceler italiano, Franco Frattini, chega na noite desta segunda-feira a Túnis para se reunir com o primeiro-ministro interino Mohamed Ghannouchi, segundo um porta-voz da chancelaria em Roma. A Tunísia tenta restaurar a ordem depois da rebelião popular que depôs o ditador Zine el-Abidine Ben Ali há exatamente um mês.

Por meio de seu porta-voz, Maroni pediu nesta segunda-feira que a Europa "passe das palavras aos atos". Paralelamente às trocas de acusações, o fato de as autoridades italianas não terem à disposição ajuda imediata de seus parceiros europeus mostra a falta de recursos para lutar contra a imigração ilegal dentro da UE.

A Comissão Europeia, o executivo do bloco, vem pedindo, até agora sem êxito, mais recursos para adquirir barcos, helicópteros e aviões para realizar as missões da Frontex, a agência europeia encarregada da vigilância das fronteiras externas.

Com um orçamento anual de cerca de 90 milhões de euros (em torno de US$ 120 milhões), a Frontex apenas consegue organizar operações-piloto e preparar estudos, lamentam fontes diplomáticas em Bruxelas. Os Estados europeus também rejeitaram que a participação nas operações da agência, atualmente voluntária, passasse a ser obrigatória, mesmo com os gastos ficando a cargo do orçamento da UE.

Com falta de efetivos permanentes e de recursos suficientes, a Frontex enfrenta dificuldades para cumprir suas metas de vigiar as fronteiras externas da UE, apoiar operações de retorno dos ilegais e mobilizar forças de reação.

Paralelamente, a Grã-Bretanha e os países escandinavos opõem-se a toda política de solidariedade com os Estados, especialmente mediterrâneos, confrontados com a chegada em massa de imigrantes e pedidos de asilo.

"Em vez de criticar a comissão, mais valeria à Itália denunciar seus parceiros que bloqueiam" as propostas para reforçar a cooperação, destacaram fontes diplomáticas. Os ministros europeus do Interior preveem abordar a luta contra o fenômeno em sua próxima reunião de 24 de fevereiro em Bruxelas.

Ajuda da União Europeia

A União Europeia alocará 17 milhões de euros (US$ 23 milhões) em ajuda de emergência ao governo interino da Tunísia, e 258 milhões de euros até 2013, informou a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, que chegou ao país nesta segunda-feira.

A alta representante para a Política Externa e de Segurança europeia se reuniu com o primeiro-ministro tunisiano, Mohamed Ghannouchi, e outros representantes do governo de transição, entre eles líderes dos antigos partidos de oposição.

Trata-se da primeira visita da chefe da diplomacia europeia à Tunísia desde a fuga de Ben Ali para a Arábia Saudita, e coincide com a renúncia no domingo do titular de Assuntos Exteriores tunisiano após quase duas semanas no cargo.