O Conselho Superior das Forças Armadas dissolveu o Parlamento egípcio, eleito em dezembro, e suspendeu a Constituição, segundo um comunicado lido neste domingo na televisão estatal, que indica que o período de transição após a renúncia de Hosni Mubarak terá duração de seis meses.
No "comunicado número 5", o conselho, ao qual Mubarak cedeu o poder na sexta-feira, anuncia "a dissolução da Assembleia do Povo e da Shoura", as duas Câmaras do Parlamento, amplamente dominado pelos membros do Partido Nacional Democrata (PND).
O PND era o partido de Mubarak.
A dissolução do Parlamento, após as eleições de dezembro do ano passado denunciadas como fraudulentas pela oposição, e a revisão da Constituição, acusada de limitar as condições das candidaturas à presidência, estavam entre as principais reivindicações dos manifestantes que forçaram a queda de Mubarak.
As Forças Armadas também anunciaram, no texto lido por uma apresentadora da televisão estatal, a "suspensão da Constituição" e a criação de uma comissão reformar a Carta Magna.
Um referendo deve ser convocado para decidir sobre as futuras emendas, segundo o comunicado.
O Conselho Supremo, integrado por 20 generais, acrescenta que ficará responsável pela direção dos assuntos do país provisoriamente durante seis meses ou até as eleições legislativas e para a presidência da República.
Horas antes do anúncio do novo comunicado, o primeiro-ministro Ahmad Shafiq afirmou que a segurança é a prioridade do novo governo egípcio.
"A prioridade deste governo é restaurar a segurança e facilitar a vida cotidiana da população", declarou Shafiq em uma entrevista coletiva.
No sábado, o Conselho Supremo das Forças Armadas determinou que o governo de Shafiq, nomeado por Mubarak, administre os assuntos correntes.
O gabinete de Shafiq, um general ex-ministro da Aeronáutica, foi formado em 31 de janeiro, seis dias depois do início da revolta popular que levou à renúncia de Mubarak.
Paralelo a isso, o Cairo recuperava paulatinamente a normalidade. Durante a manhã deste domingo, o tráfego foi liberado na Praça Tahrir, epicentro da revolta popular que deixou pelo menos 300 mortos, segundo a ONU.
Apenas uma parte da praça, ainda ocupada por centenas de manifestantes, permanecia fechada ao trânsito.
Os protestos nesta área durante 18 dias paralisaram o tumultuado centro da cidade.
Os tanques do Exército permaneciam nas entradas da praça, mas sem bloquear os acessos.
Alguns confrontos foram registrados entre soldados e manifestantes que se negam a abandonar o local.
"Não queremos sair. Ficaremos até que o Exército escute nossos pedidos", declarou Ahmed Afifi, de 21 anos, em referência às demandas pelo fim do estado de emergência e a libertação dos manifestantes detidos.
"O Exército quer matar a revolução, quer que o povo vá embora", disse Abu Tasneem, de 28 anos, professor de francês em Alexandria.
A maioria, no entanto, abandonou o local sem incidentes após a renúncia de Mubarak. A limpeza, iniciada sábado, prosseguia neste domingo, com soldados e civis.
Também neste domingo, o diretor do serviço antiguidades egípcias, Zahi Hawas, anunciou que oito peças de grande valor, entre elas uma estátua de Tutankamon, foram roubadas do Museu Egípcio do Cairo.
"Entre os objetos roubados estão uma estátua de madeira coberta de ouro do rei da XVIII dinastia Tutankamon sustentada por uma deusa e partes de outra efígie do mesmo faraó", declarou Hawas, que também é secretário de Estado de Antiguidades.
Os funcionários do governo constataram o roubo durante um inventário do museu após a invasão do local em 28 de janeiro, quando algumas pessoas se aproveitaram dos protestos contra o regime de Mubarak na Praça Tahrir, próxima ao centro cultural.
"Infelizmente descobriram que objetos do museu desapareceram", disse Hawas.
O Museu Egípcio do Cairo também é conhecido como Museu de Antiguidades Egípcias.