As chances de democracia no Egito são melhores porque o poder foi para as mãos de um grupo que não quer governar, afirmou à Folha Andrew Terrill, especialista em Oriente Médio do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA.

Para ele, seria difícil para os militares voltarem atrás na promessa de organizar eleições, e uma permanência prolongada no poder poria em risco relações vitais com os EUA e outros países.

Folha - Historicamente, o que significa a saída de Mubarak?
Andrew Terrill - Não está claro neste momento. Uma coisa é derrubar uma ditadura, outra é construir uma democracia. Não estamos certos sobre o caminho que seguirão. Há sinais promissores: os militares disseram que vão apoiar eleições livres e as exigências dos manifestantes serão atendidas ao menos em algum nível.
Mas o Egito tem uma miríade de problemas econômicos, uma corrupção tremenda, uma população que cresce muito rápido, e qualquer governo que subir ao poder vai ter um prato cheio para lidar. Há muita coisa que vão ter que fazer para agradar as massas. O trabalho está só começando, e esse período vai ser muito difícil para os egípcios.

Passar o poder para os militares era a melhor opção?
Agora que disseram que apoiam eleições livres, creio que sim. Seria difícil voltar atrás nessa promessa. Não acho que farão isso. Não querem governar. Querem manter um lugar privilegiado na sociedade, o respeito da população e continuar a investir em seus interesses econômicos. Eles têm negócios que vão muito além da área militar.
Portanto é muito provável que organizem eleições mesmo, em algum nível. Possivelmente alguns partido políticos terão de ultrapassar várias barreiras antes de conseguir disputar a eleição, mas em geral os militares não querem governar.

O sr. crê que vai demorar até ocorrerem eleições?
Duvido que leve um ano. Há muita impaciência entre a população. Acho que vão organiza-las antes disso, mesmo que as instituições civis e partidos estejam incompletos e pouco desenvolvidos.

O que muda a partir de agora?
Vão ter que permitir mais respiro para partidos políticos _mesmo os legalizados são regulados demais. Será preciso que esses partidos desenvolvam plataformas mais claras. Organizações da sociedade civil também terão de se desenvolver mais.
O que gostaria de ver é o sistema interno de segurança, que envolve tortura, acabar. A organização central de inteligência deve ter seu papel reduzido, principalmente na política. O último número que tenho é que o serviço central de segurança tinha 325 mil funcionários. É uma presença gigantesca na sociedade. Claro que há algumas organizações subversivas, como grupos pró-Al Qaeda que se desligaram da Irmandade Muçulmana, mas não é preciso 325 mil pessoas para vigia-los.
Não sei se isso vai acontecer. Acho que os militares vão limitar o papel dessas pessoas por um tempo. Teremos que ver como o novo governo vai se estabelecer. Mas vai ser difícil conduzir operações como no passado.

O que podemos esperar dos militares no poder com base em outros períodos em que isso ocorreu?
As situações são muito diferentes.
O Conselho Supremo das Forças Armadas só se reuniu algumas vezes para discutir o poder nacional. Uma foi em 1967, após a derrota para Israel, e outra em 1973, quando estavam a beira da guerra de novo. E em 1952 uma organização chamada Oficiais Livres derrubou o rei Farouk e estabeleceu um Conselho de Comando Revolucionário. O Exército liderava, mas era basicamente um veículo para o poder de (o ex-ditador) Gamal Abdel Nasser. Mas não derrubaram o rei em nome da democracia, que nunca estabeleceram.
Isso foi há muito tempo, quando havia uma sensação de que era preciso um homem forte para organizar a sociedade. Houve muita repressão à oposição, e não vejo isso acontecer agora.
Os militares são diferentes hoje. Querem manter seu papel na sociedade, mas não controlar o poder. Precisam manter boas relações com os EUA, que os abastece com armas. Se tentassem ficar além do necessário no poder isso complicaria suas relações com Washington e com vários países.
E muitos desses oficiais são muito mais cosmopolitas e sofisticados do que os do passado. Passaram muito tempo no Ocidente. São pessoas diferentes.

Como a saída de Mubarak muda relações de poder entre os diversos grupos egípcios?
Como é sabido, a Irmandade Muçulmana é o grupo de oposição mais organizado do país. Serão importantes, mas não são o único ator que ganha destaque. Teremos uma série de partidos que representam a classe média que serão fortalecidos. Não está claro quem será o poder dominante. Acho que vai levar muito tempo até que isso seja estabelecido.