O Ministério dos Transportes francês e o Escritório de Investigações e Análises (BEA), responsável por apurar as causas do acidente com o voo AF 447 da Air France, anunciaram nesta manhã, em Paris, o lançamento de uma quarta missão para tentar localizar as caixas-pretas do Airbus A-330 que caiu no oceano Atlântico na noite do dia 31 de maio de 2009, quando fazia a rota Rio de Janeiro-Paris. As autoridades não precisaram se esta será a última tentativa de encontrar os destroços da tragédia, que provocou a morte de 228 pessoas.

O projeto vai ser lançado no próximo dia 9 e terminará em 8 de julho. Neste período, a missão vai se dividir em três fases de ação, de 36 dias cada - 30 dias no oceano e seis previstos para os deslocamentos. O navio Alucia, portando os submarinos, deve deixar o porto de Suape, no Recife (PE), no dia 18 de março e se dirigir para o ponto onde caiu o avião. Nesta região, foi estabelecida uma zona de buscas de 75 km de diâmetro, totalizando 11 mil km².

"Nós estamos certos, praticamente certos, de que os destroços se encontram no interior deste círculo que nós delimitamos", afirmou Jean-Paul Troadec, diretor do BEA. "Nunca estivemos com tanta esperança como agora, porque vamos passar pelo menos duas vezes em cada parte desta zona. Se os destroços estiverem ali, serão encontrados", garantiu.

Esta nova fase de buscas vai contar com três submarinos Remus 6000, o mesmo modelo que já havia sido utilizado na fase anterior, no ano passado. Dois deles pertencem à fundação Waitt e o terceiro, ao Instituto Oceanográfico Geomar, da Alemanha. "Trata-se da melhor e mais sofisticada robótica que existe hoje para realizar este tipo de exploração marítima", disse David Gallo, do Geomar.

Os especialistas destacaram as dificuldades em se vasculhar uma região com relevo tão acidentado como o fundo do oceano Atlântico, que chega a 4 km de profundidade e possui um solo montanhoso, "semelhante aos Alpes". Outro ponto que não pode ser descartado é a possibilidade de as caixas-pretas estarem danificadas, uma vez que já se passaram quase dois anos da tragédia. "De acordo com o que observamos em casos precedentes, temos boas razões para estarmos otimistas de que será possível analisá-las", afirmou Alain Brouillard, diretor das investigações no BEA.

Se as caixas-pretas forem encontradas, imediatamente será lançada a quinta fase, de recolhimento dos destroços e análise do material capturado. Esta fase de buscas está sendo totalmente financiada pela companhia aérea Air France e a fabricante Airbus, e vai custar US$ 12,5 mil. Até agora, a França e as empresas já desembolsaram mais de 20 milhões de euros nas tentativas de encontrar os restos do avião.

"As famílias têm o direito de saber o que aconteceu e nós temos o dever de evitar que novas acidentes ocorram pelas mesmas causas", destacou o ministro francês dos Transportes, Thierry Mariani, que recebeu representantes das famílias das vítimas nesta manhã, em Paris, e participou do anúncio da nova fase de buscas.

Dois brasileiros vieram a Paris a convite da Airbus para conhecer os detalhes da operação. Nelson Marinho, que perdeu um filho no acidente, não parecia satisfeito com as explicações. "Não posso acreditar que, em pleno século 21, não se consiga encontrar um avião inteiro no fundo do mar. Essa investigação nunca foi transparente", afirmou Marinho.

Já Maarten van Sluys, diretor-executivo da Associação das Famílias das Vítimas do Voo AF 447, disse que a principal reivindicação da associação neste momento é que um representante brasileiro acompanhe em permanência o andamento das investigações. "Nós ficamos distantes e não conseguimos sentir confiança no que está sendo feito aqui. Falei sobre isso com o ministro dos Transportes e ele concordou que, se as caixas-pretas forem encontradas, teremos um brasileiro aqui para acompanhar tudo", relatou.

O diretor do BEA lembrou que o órgão está insistindo junto aos órgãos europeus de regulação de aviação civil para que os aviões passem a utilizar baterias mais duradouras nas caixas pretas. As atuais permanecem ligadas por 30 dias, e a expectativa é de que no futuro elas durem até 90 dias, a fim de facilitar as buscas pelos destroços em caso de acidentes. Outra sugestão do BEA é que os aviões passem a informar suas posições de voo com mais frequência, para delimitar com mais precisão o local exato onde uma aeronave sofreu um acidente. Troadec destacou, no entanto, que ainda não é possível prever quando as aeronaves civis serão capazes de transmitir automaticamente para o exterior o conteúdo das caixas-pretas durante um voo, como fazem os aviões militares.