Em entrevista exclusiva à emissora americana CNN, o ativista vencedor do Prêmio Nobel da Paz e ex-diretor da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica da ONU) e principal voz da oposição no Egito, Mohamed ElBaradei, disse que o presidente dos EUA, Barack Obama, precisa exigir publicamente a renúncia do o ditador Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.
Questionado se o presidente americano deveria ser mais incisivo na crise egípcia, ElBaradei disse estar certo de que Obama vai pedir a renúncia de Mubarak "hoje ou amanhã", e que não há dúvidas de que este é o melhor caminho.
"Se não aconteceu ainda, deve acontecer hoje ou amanhã. É melhor que ele saia, é melhor que este ditador abandone o Egito e Obama deveria exigir isto publicamente", afirmou.
IRMANDADE MUÇULMANA
Em meio a temores de que o grupo conservador Irmandade Muçulmana possa tomar o poder e converter o Egito numa república islâmica de cunho fundamentalista, o Prêmio Nobel da Paz indicou que esta não é uma possibilidade.
"Eu tenho bastante confiança de que isso não vai acontecer. Isto é um mito criado pelo governo dele [Mubarak], de que as opções são ou a ditadura ou o fundamentalismo islâmico. A irmandade muçulmana não tem nada a ver com o Irã, não tem nada a ver com o fundamentalismo. Eles são a favor de um estado laico, não baseado na religião, são conservadores, são uma minoria no Egito", afirma.
Para ElBaradei o grupo deve ser integrado à nova política egípcia, não há motivos para que eles sejam banidos.
PRESIDÊNCIA INTERINA
Questionado pela CNN, o ativista disse que servir como presidente interino não é sua prioridade e que ele tem interesse em diversos assuntos globais e direitos humanos, mas que pode assumir caso este seja o desejo dos egípcios.
"Eu estou à disposição de fazer tudo que possa fazer para salvar este país. Mas se o povo egípcio quiser que eu sirva como uma ponte nesta transição entre a ditadura e um Egito democrático, não vou abandoná-lo", afirmou.
REUNIÃO COM MILITARES
Enquanto os protestos no Cairo e Alexandria voltam a se intensificar e milhares tomam as ruas novamente, o ditador egípcio Hosni Mubarak reuniu-se com chefes do Exército para revisar a situação da segurança nacional, informa a TV estatal do Egito.
Desde o início dos protestos na última terça-feira (25), o país já contabiliza ao menos 38 mortos, indica a CNN; agências internacionais, no entanto, sugerem que o número já seja maior e a Reuters menciona ao menos cem vítimas. A Al Jazeera, emissora com base no Qatar, fala em 150 mortos.
De acordo com a emissora o ditador e o vice-presidente Omar Suleiman (ex-chefe dos serviços de inteligência) visitaram o Centro de Operações das Forças Armadas e conversaram com o ministro da Defesa, o general Husein Tantawi.
No sábado (29), o ditador nomeou um vice-presidente pela primeira vez em 30 anos e também um novo premiê, com a missão de formarem um novo governo.
Ambos são ligados às Forças Armadas e sua nomeação é interpretada como uma tentativa de Mubarak de ganhar mais apoio dos militares, que chegaram a ser vistos apoiando os manifestantes inclusive levando cartazes nos tanques.
Já o centro de imprensa do governo revelou que o novo premiê, Ahmed Shafic, deve revelar ainda neste domingo seu novo gabinete de ministros.
As fontes não indicaram em que horário será realizado o anúncio, nem forneceram mais detalhes a respeito.
Embora o país tenha registrado um início de manhã mais calmo, os protestos logo foram retomados. Na praça Tahrir, no centro do Cairo, ao menos 3.000 manifestantes intensificaram as revoltas, enquanto líderes mundiais aumentam a pressão por mais reformas no regime do ditador Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.
Aos gritos de "Mubarak, o avião aguarda" e "Hosni Mubarak, Omar Suleiman, vocês dois são agentes dos americanos", milhares de jovens seguem protestando.
Líderes mundiais pressionam Mubarak por mudanças mais significativas do que a simples reformulação de seu gabinete. EUA, Reino Unido, França e Alemanha emitiram comunicados com o mesmo tom, afirmando que as alterações na política egípcia são insuficientes para o retorno da estabilidade.
"Pedimos ao presidente Mubarak para evitar de todas as formas o uso da violência contra civis desarmados, e aos manifestantes para exercitar seus direitos de forma pacífica", disseram o premiê britânico, David Cameron, a chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em comunicado conjunto.
Comentando a crise pela primeira vez, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que o país observa atentamente a situação e pediu contenção. Os dois países já travaram três guerras no passado.
"Israel e Egito estão em paz por mais de três décadas e nosso objetivo é garantir que esses laços sejam preservados. Neste momento, precisamos demonstrar responsabilidade, contenção e a máxima prudência", disse.
A fronteira entre Rafah, no Egito, e a faixa de Gaza, foi fechada. Ontem, tiroteios entre manifestantes egípcios e forças de segurança mataram ao menos 12 no local, levantando temores de que os confrontos possam contaminar a já tensa situação no território palestino.
Imerso na mais grave crise política das últimas décadas, o Egito enfrenta o sexto dia de instabilidade. Apesar de o domingo ser um dia útil no mundo árabe, escolas, escritórios do governo, bancos e a bolsa de valores egípcia ficarão fechados.
Buscando fechar o cerco à mídia, o governo egípcio fechou os escritórios e confiscou as credenciais de todos os correspondentes da emissora de TV Al Jazeera.
Com base no Qatar, a emissora tem sucursais em todo o mundo, com correspondentes inclusive no Brasil, e transmite notícias em árabe e inglês.
Os transportes também seguem interrompidos em grande parte das cidades, e o metrô do Cairo funciona de forma reduzida.