As tragédias causadas pelas chuvas no sul e no leste de Minas Gerais e na região serrana do Rio de Janeiro podem gerar reações negativas nas pessoas até meses depois da ocorrência do problema. O transtorno se chama estresse pós-traumático e afeta pessoas que viveram situações difíceis, como a perda de entes queridos, guerras, catástrofes naturais, agressões, assaltos e acidentes.
Segundo a médica e psicanalista Soraya Hissa, diferentemente do estresse agudo, quando uma pessoa sofre um trauma e consegue superá-lo em pouco tempo, o estresse pós-traumático aparece vários meses após o fato.
- O estresse pós-traumático é a reação que surge de forma tardia a um evento de natureza ameaçadora ou catastrófica. Aparece, no mínimo, seis meses depois do trauma e causa sintomas como sonhos, isolamento, medo, pânico, agressividade, choque, hipervigilância e alterações do sono e do apetite. Vítimas das chuvas de dezembro e janeiro podem apresentar o transtorno.
De acordo com a psicóloga Maria Emídia de Melo Coelho, especialista em luto e atendimento em emergência e desastres, em casos de catástrofes naturais, como ocorreu no sul de Minas, no primeiro momento há um sentimento de paralisação, medo e pânico. Em seguida, aparece um espírito de solidariedade e ajuda mútua.
- O importante é haver um acompanhamento desde o primeiro momento para evitar complicações. Dependendo do grau, até com medicamentos. O luto até os dois primeiros meses é normal. Após o período, é necessário procurar um atendimento profissional.
Maria Emídia sugere que quem está próximo de pessoas que sofreram grandes traumas ouça a vítima e procure motivar um desabafo.
- Segurar a dor só prejudica. Há situações difíceis, como a perda de entes queridos, vítimas de enchentes, cujos corpos nem foram encontrados. Nesses casos, por mais que o velório seja dolorido, a cerimônia é fundamental para que a pessoa aceite a perda.
Se não, haverá esperança de reencontro.
A presidente do Departamento de Tanatologia da Associação Médica de Minas Gerais, Ana Paula Abranches, diz que a reação varia de pessoa para pessoa.
- Depende de cada um e da intensidade do trauma vivido. Se já houver um passado psiquiátrico, a pessoa pode desenvolver até um surto psicótico.
Uma das pessoas que passou por um desses estresse é a cabeleireira Mona Souza Braimer, de 45 anos. Ela perdeu praticamente todos os seus bens, por três vezes, em enchentes.
- Há 13 anos, houve uma enchente em Venda Nova, onde eu morava. Eu estava grávida e perdi tudo em minha casa. Foi uma grande tristeza. Até hoje, mesmo morando em lugar alto, sinto medo de chuva e não consigo dormir. Passei o medo para minha filha. Quando vejo tragédias como esta na TV fico angustiada.