Um recente estudo sobre mudanças climáticas feito por uma organização com sede na Argentina, que projetava um aumento de temperatura de 2,4 graus e uma escassez alimentar mundial na próxima década, tem erros importantes, disseram cientistas nesta quarta-feira (19).
O trabalho foi publicado no EurekAlert, um serviço independente para jornalistas criado pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) e foi divulgado por várias agências internacionais de notícias, entre elas a AFP.
A associação tirou o estudo de sua página quando um grupo de especialistas apontou erros em seu enfoque. Segundo o estudo publicado na terça-feira (18), a temperatura do planeta poderia aumentar 2,4 graus até 2020. Com esta perspectiva, a combinação do impacto das mudanças climáticas na produção agrícola e do crescimento da população mundial, que chegará aos 7,8 bilhões de indivíduos até 2020, levará a colheitas insuficientes.
A produção mundial de trigo sofreria um déficit de 14% com relação à demanda dentro de 10 anos, enquanto "a produção global de trigo, arroz, milho e soja cairá entre 2,5% e 5%" na América Latina, destacou o informe.
"Um jornalista do The Guardian nos alertou ontem [terça-feira, dia 18] sobre dúvidas com relações públicas Hoffman & Hoffman", escreveu a porta-voz da AAAS, Ginger Pinholster, em uma mensagem eletrônica à AFP. "Imediatamente contatamos um especialista em mudanças climáticas, que confirmou que a informação também lhe provocava dúvidas. Rapidamente tiramos o informe do nosso site na internet e contatamos a organização que nos enviou", disse.
O climatologista Rey Weymann disse à AFP que "o estudo contém um erro importante, dado que confunde o aumento do 'equilíbrio' da temperatura com o 'aumento da temperatura transitória'".
O cientista Osvaldo Canziani, que fez parte do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), aparece como assessor científico do estudo. O IPCC, cujas cifras foram citadas como base para as projeções deste trabalho, ganhou juntamente com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, o prêmio Nobel da Paz em 2007 por seu esforço de divulgação sobre os riscos das mudanças climáticas. O porta-voz de Canziani disse na terça-feira que o cientista estava doente e não podia dar entrevistas.