O típico mau humor francês se refletiu em uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira pelo jornal Le Parisien sobre as expectativas dos povos de 53 países em relação ao ano recém iniciado. Nada menos do que 61% da população da França é pessimista em relação ao futuro da situação econômica nacional, índice cinco vezes superior ao encontrado em países em guerra como o Iraque (12%) e o Afeganistão (14%). A pesquisa BVA/Gallup International mostrou que, de forma geral, os franceses são o povo mais cético do planeta sobre 2011.
Já os brasileiros são uns dos mais otimistas do mundo sobre a sua situação pessoal: 73% deles acham que 2011 vai ser melhor do que 2010 - contra 15% dos franceses, 26% dos europeus em geral e 43% da média mundial. O Brasil também se destaca como a população que mais confia na diminuição do desemprego e na melhoria da situação do mercado de trabalho.
Até mesmo a paupérrima Nigéria é mais otimista que a França: 72% dos nigerianos confiam na prosperidade econômica em 2011, contra apenas 3% dos franceses, que se colocaram sempre entre os três povos mais pessimistas da Europa em todas as questões apresentadas na pesquisa.
Em cada país, foram ouvidas entre 500 e 2,7 mil pessoas. Apesar da visão negativa dos europeus, de maneira geral a população mundial tende a ver com bons olhos a chegada de 2011: o índice do moral (otimistas - pessimistas) no mundo ficou em +23. Os vietnamitas são os campeões do otimismo com +61 de índice moral. Algumas populações, como a americana, se revelaram céticas para o mundo (-8), mas entusiasmadas com a situação pessoal (+24).
Já os países emergentes dão um show de otimismo. De acordo com o estudo - realizado junto a 64,2 mil pessoas, ouvidas entre outubro e dezembro de 2009 -, os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) confiam em 49% que haverá melhoras econômicas ao longo do próximo ano, contra apenas 15% na Europa e 25% nos Estados Unidos. Brasileiros e chineses elevam para cima os índices, em contrapartida às más expectativas dos russos.
"O modelo econômico dos países desenvolvidos foi posto em questão depois da crise iniciada em 2008", afirmou Céline Bracq, diretora-adjunta de Opinião do BVA. "Devido à instabilidade que se instalou, europeus e americanos estão demorando a acreditar que podem fazer planos concretos a longo prazo".
Ouvido pelo Parisien para comentar a pesquisa sob o ponto de vista dos franceses, o psiquiatra Serge Hefez observou que a população da França é dependente de um Estado protetor, e que agora pode estar se sentindo abandonada em decorrência da má situação econômico. Nestes momentos, o governo tem como prioridade apagar os incêndios provocados pela crise.
"Além disso, o francês tem visto desaparecer certas noções essenciais da França, como a da igualdade. Cada vez mais, o fosso entre ricos e pobres está aumentando no país, o que dá um sentimento de desamparo, como se o Estado de Bem-Estar Social, tão caro aos franceses, estivesse ruindo", explicou Hefez, antes de lembrar que o pessimismo é também uma característica ancestral dos franceses. "Os gauleses sempre foram os mais pessimistas, não importa quando e em que tipo de pesquisa", disse.