Centenas de estudantes e trabalhadores foram às ruas da Itália em protestos exigindo a renúncia do premiê Sílvio Berlusconi, no mesmo dia em que o Senado e a Câmara votaram por sua permanência no poder, apesar de estar imerso em crises, escândalos sexuais e acusações de corrupção.

Muitos atiraram bombas de fumaça e latas de tinta contra viaturas policiais e prédios do Parlamento, em Roma, durante a votação que poderia forçar a renúncia do premiê.

Os estudantes protestam também contra uma reforma universitária --parte dos planos de austeridade fiscal-- que o governo tenta implementar.

Em Palermo, cerca de 500 estudantes chegaram a bloquear as pistas do aeroporto local e em Milão a bolsa de valores foi invadida.

Em alguns locais da capital italiana houve confrontos entre a polícia e os manifestantes.

Marchas de protesto foram vistas também em outros pontos do país, informam as agências de notícias.

"Os trabalhadores italianos querem que Berlusconi renuncie", disse Gianni Rinaldini, líder do sindicato Fiom.

"Eles não fizeram nada. Nada foi feita pelas universidades e estamos numa situação que piora a cada dia", disse o estudante universitário Valerio Zampani.

PALERMO E MILÃO

Além dos violentos protestos em Roma, diversas outras cidades italianas foram palco de manifestantes que pediam a renúncia de Berlusconi.

Cerca de 500 estudantes universitários e secundários bloquearam o aeroporto Falcone-Borsellino da cidade italiana de Palermo, em protesto contra a reforma universitária.

Os estudantes, indicaram fontes locais, chegaram às pistas do aeroporto após burlar os sistema de segurança do local.

Também nesta terça-feira, uma centena de estudantes invadiram a Bolsa de Milão para protestar contra a reforma.

Antes de deixar o recinto, o jovens lançaram panfletos nos quais chamavam os investidores de 'ladrões e mafiosos'.

Ainda no sábado a Itália já tinha registrado intensos protestos que pediam a saída de Sílvio Berlusconi do poder. Milhares foram às ruas de Roma em marchas.

APOIO DO PARLAMENTO

Tanto o Senado quanto a Câmara da Itália optaram nesta terça-feira pela manutenção de Sílvio Berlusconi no posto de premiê, após um voto de desconfiança trazido à tona por membros da oposição. A frágil maioria, no entanto, de apenas três votos de diferença entre os deputados, deve dificultar suas manobras de governo.

A vitória no Senado, por 162 votos a favor de um total de 308, já era esperada. A votação na Câmara, no entanto, onde o premiê já havia perdido a maioria meses atrás, ainda era dada como incerta.

Chamados um a um em frente ao plenário, os deputados italianos deram seus votos publicamente: 314 a favor e 311 contra.

O placar apertado indica a frágil maioria com a qual Berlusconi governará na Câmara até o fim de seu mandato.

A moção de desconfiança, apresentada pelo grupo Futuro e Liberdade para a Itália (FLI), de seu ex-aliado e presidente da Câmara, Gianfranco Fini, junto ao oposicionista União Democrática de Centro (UDC) e ao centrista Aliança para Itália,.

Caso o premiê tivesse sido rejeitado pelo Senado ou pela Câmara, de acordo com a Constituição, teria que renunciar ao cargo e o presidente do país, Giorgio Napolitano, teria que iniciar uma fase de consultas para a formação de um novo governo. Caso não conseguisse, teria que dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.

Imerso em uma grave crise econômica e em meio a turbulentas relações com a oposição e denúncias de corrupção, Berlusconi permanece à frente da Itália, mas seu governo ainda precisará lidar com importantes temas.

Ainda ontem (13), o premiê alertou os congressistas de que sua saída do governo seria um "desatino político" que mergulharia o país ainda mais na crise econômica.

Confirmado no cargo, Berlusconi enfrenta agora o desafio de guiar a economia italiana e resolver disputas políticas com a oposição para tentar facilitar o restante de seu mandato.

ALERTA

"Eu peço a vocês (...) que reflitam sobre o desatino político que seria hoje abrir uma crise sem soluções visíveis e críveis", declarou Berlusconi perante o Senado ainda na segunda-feira (13).

"Nosso país está sendo abalado por sérias tensões que afetam o coração do sistema econômico -- e a credibilidade financeira do Estado", destacou.

A estabilidade financeira da Itália "depende do voto de confiança", afirmou. O voto de desconfiança será observado cuidadosamente por investidores que estão em alerta vermelho com a zona do euro e que podem voltar-se contra a Itália, um dos países mais endividados de toda a Europa, se a situação política ameaçar a estabilidade financeira.

MAIORIA

Esta é a segunda vez neste ano que o premiê enfrenta um "voto de desconfiança" no Parlamento, quando os congressistas decidem se o governo tem condições de seguir no poder ou não.

Um desentendimento com um grupo do ex-aliado Gianfranco Fini em julho já custou a Berlusconi a maioria no Parlamento e depois de meses de impasse, agora o premiê pode perder o controle do governo.

DENÚNCIAS E WIKILEAKS

Além da crise gerada com a oposição e a instabilidade política e financeira em que a Itália está mergulhada, Berlusconi sofreu mais um golpe ainda na sexta-feira (10), quando uma investigação de corrupção foi aberta.

A Justiça italiana deu início a uma investigação sobre alegações feitas por políticos de centro-esquerda de que o premiê estaria comprando votos no Parlamento.

Além disso, na semana passada telegramas diplomáticos dos EUA divulgados pelo site WikiLeaks contribuíram para enfraquecer ainda mais o governo de Berlusconi.

Segundo os documentos, o premiê teria lucrado com acordos energéticos assinados com a Rússia.

Em resposta, Berlusconi jurou pelos filhos que não ganhou dinheiro com as transações assinadas com o governo russo.

Os telegramas revelaram que o embaixador da Geórgia em Roma disse aos altos funcionários americanos que o governo de seu país suspeitava que o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, tinha prometido percentual dos lucros dos gasodutos construídos pela russa Gazprom junto com a italiana Eni.