O déficit em transações correntes (balança comercial, serviços e rendas), um dos principais indicadores do setor externo brasileiro, avançou 157% no acumulado de janeiro a outubro deste ano, quando totalizou US$ 38,7 bilhões, ou 2,73% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo números divulgados nesta terça-feira (23) pelo Banco Central. Em igual período do ano passado, o déficit em conta corrente havia somado US$ 15,07 bilhões, ou 1,22% do PIB.

Somente em outubro deste ano, o rombo das contas externas foi de US$ 3,7 bilhões. Para todo este ano, o BC manteve a previsão de que o déficit em conta corrente somará US$ 49 bilhões, o que, se confirmado, representará um valor recorde. Para 2011, a expectativa do BC é de que as contas externas piorem mais ainda, com um resultado negativo estimado em US$ 60 bilhões.

Em 12 meses até outubro deste ano, o rombo das contas externas somou US$ 47,98 bilhões, o equivalente a 2,43% do PIB, segundo números do BC. Apesar do crescimento do rombo da conta de transações correntes neste ano, ele já chegou a patamares maiores, em sua relação com o PIB, no passado. Em 1982, por exemplo, antes da moratória da dívida externa brasileira, atingiu 6% do PIB. Em 1999, quando houve a maxidesvalorização do real, o débito somou 4,32% do PIB.

Crescimento econômico e dólar barato
A principal explicação para a deterioração das contas externas brasileira neste ano é o crescimento da economia nacional, que eleva o volume de importações e piora o resultado comercial, e também resulta em maiores remessas de lucros e dividendos ao exterior - contribuindo para pressionar o resultado negativo para cima. O crescimento da economia, junto com o dólar barato, também piora a conta de viagens internacionais - uma vez que mais brasileiros passam a ir ao exterior em suas férias.

No caso da balança comercial, por exemplo, o saldo positivo, que somou US$ 22,5 bilhões de janeiro a outubro do ano passado, recuou para US$ 14,62 bilhões no mesmo período deste ano - contribuindo para a piora das contas externas. Ao mesmo tempo, as remessas de lucros e dividendos ao exterior passaram de US$ 17,88 bilhões de janeiro a outubro de 2009 para US$ 23 bilhões em igual período deste ano, com efeito também negativo sobre as contas externas.

Outro efeito da expansão da economia, o aumento dos gastos de turistas brasileiros no exterior também contribuiu para o aumento do rombo das contas externas brasileiras. De janeiro a outubro do ano passado, o resultado negativo (gastos de brasileiros no exterior menos despesas de estrangeiros no Brasil) somou US$ 4,38 bilhões, avançando para US$ 8,4 bilhões em igual período de 2010.

Investimentos estrangeiros
Os investimentos estrangeiros diretos, por sua vez, avançaram em setembro, ao somarem US$6,77 bilhões. Com isso, ficaram acima da previsão do BC de ingresso de US$ 5 bilhões em investimentos no mês passado.

No acumulado do ano, os investimentos estrangeiros diretos totalizaram US$ 29,4 bilhões, com crescimento de 52,8% frente ao mesmo período de 2009 (US$ 19,23 bilhões). Com esse resultado, também superaram os investimentos feitos em todo ano passado, que somaram US$ 25,94 bilhões.

Para todo este ano, a previsão do BC é do ingresso de US$ 30 bilhões em investimentos estrangeiros na economia. Mesmo com a elevação nos investimentos na economia brasileira em outubro e no acumulado do ano, eles não foram suficientes para cobrir o rombo das contas externas, de US$ 38,7 bilhões até o mês passado.

Isso quer dizer que o o financiamento das contas externas ficou mais complicado, uma vez que o país precisará se apoiar mais na entrada de capitais para aplicações financeiras (renda fixa e bolsa de valores), considerados mais instáveis, pois podem sair a qualquer momento, ou pegar empréstimos no exterior, para fechar a conta.