Um dos maiores legados deixados pela comemoração dos 100 anos do Teatro Deodoro, além da farta programação cultural nesta semana iniciada no dia 15, será a contribuição da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (DITEAL) para a bibliografia sobre o teatro alagoano, através da produção do livro “Theatro Deodoro – 100 anos de arte” que será lançado na próxima segunda, 15, no Teatro Deodoro, quando do aniversário do palco oficial do estado.
O livro é fruto de quase um ano de trabalho de pesquisa arquitetônica e artística, num verdadeiro e minuncioso trabalho investigativo. A organização dos trabalhos ficou a cargo do Diretor-Presidente da DITEAL, Juarez Gomes de Barros e do Arquiteto Sandro Gama, tendo ainda a coordenação do próprio Sandro e de Alexandre Holanda, diretor-artístico da DITEAL, numa pesquisa feita pelo Professor e ator Ronaldo de Andrade, pela Arquiteta Cynthia Fortes e por Sandro Gama. “Estamos felizes com o resultado do livro... foi um trabalho que nos instigou bastante pela importância histórica da obra”, explicou Juarez Gomes de Barros.
Conversamos com Sandro Gama e Ronaldo de Andrade sobre esse trabalho:
Do que trata o livro 100 anos de Arte?
Sandro Gama _ A busca incessante foi por tratar de Arte, saindo um pouco do ícone-edifício e voltando-se à sua alma, ao recheio que o compõe e o compôs.
Assim sendo, temos a arte de Lucarini ao projetar o ediício, a arte de Orestes Sercelli ao decorar o edifício e, acima de tudo, a arte ali encenada, apresentada, representada,...
Ronaldo de Andrade _ Abordamos a história do Theatro Deodoro, realizando um recorte definido como a ocupação do Theatro Deodoro pelos alagoanos durante um século, sob o título: Do Theatro Deodoro: alagoanos no palco, platéia e coxias durante cem anos . Para tanto tratamos apenas sobre alguns fatos históricos que consideramos relevantes dentre todos os recolhidos e relativos à prática do teatro e das artes cênicas em Alagoas, mas realizados no Theatro Deodoro.
Que aspectos são tratados pelo livro?
Sandro Gama _ O livro trata da descrição da Maceió que recebeu o edifício, do desejo por um teatro de grande porte, dos aspectos artísticos do edifício em si e do edifício teatro enquanto ícone imagético. Mas, destaco como uma grande contribuição a feita à história da arte teatral, da dança e da musica alagoana, pelo registro de quem passou, produziu e se destacou no palco, nos jardins ou no Salão Nobre.
Como a pesquisa artística foi feita?
Ronaldo de Andrade _ Recorri ao período já levantado anteriormente, isto é, dos anos 1930 a 1970, que embasa a dissertação “Teatro Amador no Maceió das Alagoas (1940-1970): A Trajetória do Efêmero”, de minha autoria; Fechei o século XX com o material sobre os anos 1970-1980-1990, que já havia recolhido; Também tomamos como base as coleções dos jornais antigos existentes no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – IHGAL, sobre os anos 1910-1930 e para isto contamos com o ânimo de Alexandre Holanda, a imensa compreensão de Sandro Gama, o auxílio de Carla Marsiglia e do fotógrafo Keyler Simões e dos funcionários do IHGAL. Contamos com os “registros de ocupação” realizados pela Diretoria Artística da Diretoria dos Teatros de Alagoas - DITEAL, sobre os anos 2000-2010. Recorremos a depoimentos de artistas da dança e completamos com o apoio de livros e “sites” sobre as histórias do movimento artístico em alguns dos estados brasileiros, relativos aos fatos históricos selecionados. Para chegar ao final tivemos que sacrificar, por vezes, tanto o cumprimento do “cronograma de execução” quanto nos submeter à disciplina quase jesuítica e assim resistir às tentações que levariam à uma abordagem muito além do objetivo definido.
Quem participa da equipe que produziu o livro?
Sandro Gama _ A equipe nasceu com a partipação inicial de Cynthia Fortes, eu e o Ronaldo de Andrade; os dois primeiros tratariam da história do edifício, e o Ronaldo da arte em si. A Cynhtia logo trouxe dois importantes nomes, uma para co-autoria com os textos dela, a Profª. Drª. Josemary Ferrare, e a Solange Ferraz de Lima. Como a Drª. Fátima Campello havia sido a grande fomentadora das pesquisas sobre Lucarini nas últimas décadas, sentimos o desejo de acrecentá-la, e o fizemos, aproveitando o conhecimento gerado por sua tese de doutorado sobre postais de Maceió. A Solange é curadora do acervo de Orestes Sercelli e é magnífica sua contribuição ao avaliar aproveitando-se da restauração recém realizada do Salão Nobre de aspectos comuns aos projetos do decorador existentes no Museu Paulista da USP.
Cynthia e eu já havíamos escrito juntos, e com Vania Amorim, o livro sobre Luigi Lucarini, lançado em janeiro e o Ronaldo fez doissertação sobre o tema, ou seja, havia magnífica composição de pesquisadores prontos para registrar os 100 anos da forma como a Direção dos Teatros de Alagoas queria, e tivemos ampla liberdade para fazê-lo!
O que mais lhe chamou atenção durante a produção do livro?
Sandro Gama _ Acho que vou fazer como numa cena teatral, deixar em suspense... Apenas vou adiantar que em 1910 o Theatro Deodoro era bem diferente... procurem as fotos!
Ronaldo de Andrade _ Constatamos que o teatro de uma forma em geral, está sempre correndo perigo de desaparecimento e clama por visitação, preservação, avaliação e divulgação uma verdadeira fortuna de informações históricas sobre a atividade teatral em Maceió, no interior de Alagoas e especificamente sobre o Theatro Deodoro.
A bibliografia sobre o teatro alagoano e sobre o Teatro Deodoro é bastante escassa. Como você analisa essa disposição da DITEAL e essa possibilidade de contribuir para essa bibliografia?
Sandro Gama _ Eis um ponto que pode funcionar como depoimento. Há na equipe do Theatro um amor próprio àqueles que amam a arte e àqueles que sofreram pela ausência do espaço para arte. Foi incrível compartilhar nesses últimos meses, com desabafos intensos sobre más gestões administrativas e políticas, agora superados por uma excelente obra, além de olharem para a frente, para o futuro do Bem, para sua manutenção preventiva, com a expectativa de quem muito deseja que o quadro das últimas décadas não volte. E a DITEAL foi enfática ao desejar representar nesse livro não apenas aspectos da arquitetura do prédio, mais enfatizar sua arte. O trabalho do Ronaldo é um grande trabalho e será um fomentador ao desenvolvimento da história da arte local. Aliás, deve-se registrar ser difícil encontrar livros sobre a história da arte cênica até em outros Estados do País.
Está aí a grande contribuição aos 100 anos do Theatro Deodoro: fazer a arte continuar e escrever e re-escrever constantemente sua história!
Ronaldo de Andrade _ O nosso trabalho é um trabalho de “apontamento a respeito de alguns fatos” considerados relevantes, pela singularidade e pela repercussão, para o alcance de uma idéia sobre a relação existida e existente entre o alagoano e o Deodoro. A história dos CEM ANOS DE THEATRO DEODORO EM ALAGOAS será um próximo projeto a ser desenvolvido.
“Nós não queríamos fazer um livro simplesmente, mas uma referência para pesquisa e que retratasse ao menos um pouco da história artística do Teatro Deodoro, e acho que conseguimos”, finalizou Alexandre Holanda, Diretor-Artístico da DITEAL.
O livro não será vendido, mas distribuído no dia do lançamento e em bibliotecas públicas para que um maior número de alagoano e brasileiros tenha acesso a mais essa obra da literatura teatral do estado.