Andrade, hoje, luta para salvar o Brasiliense da queda para a Terceirona do Brasileirão. Há quase um ano, conquistava a Série A, após irretocável campanha pelo Flamengo. Os cenários são duramente distintos, mas insuficientes para mudar a personalidade do treinador. Calmo e sereno, como lhe é de costume, o ex-volante recebeu a reportagem do LANCENET! na concentração do time candango, poucas horas antes da importante vitória por 1 a 0 sobre o Guaratinguetá. Andrade analisou seu momento atual e lembrou sua conturbada saída do Flamengo. Sobre os problemas no grupo que influenciaram na sua demissão, foi direto:
- O jogador estava dentro da favela, mas eu estava na minha casa. Não posso ficar andando atrás de jogador e dizer que ele estava errado.
LANCENET!: Como você vê essa experiência no Brasiliense?
ANDRADE: Está sendo uma grande experiência. Estou vivendo os dois lados como treinador. Fui campeão brasileiro em 2009. Vivi o auge, aquela euforia toda. Agora estou tendo uma experiência diferente, de tirar esse time da zona de rebaixamento. É uma experiência boa para mim, para meu crescimento como técnico. Até porque precisava desvincular meu nome um pouco do Flamengo. Era a oportunidade que eu tinha, precisava respirar ares diferentes.
LNET!: Você sente como se estivesse começando de novo?
Na vida, nunca tenho medo de recomeçar. Se precisar começar tudo do zero, farei isso tranquilamente. Gosto desse tipo de desafio. Fui campeão brasileiro com o Flamengo, mas, se tivesse de sair do zero, não haveria problema nenhum para mim. É um desafio e nossa vida é feita disso. É nas dificuldades que as pessoas tendem a crescer. É o meu caso.
LNET!: Você saiu do Flamengo em meio a uma crise política. Quanto tempo você levou para digerir essa saída?
Essa mudança (de técnico) seria feita em dezembro. Houve a mudança de presidente e ela (Patrícia Amorim) veio com as suas pessoas de confiança. Isso é normal dentro da política de um clube. Fomos campeões e não teve como mudar (de técnico). Tiveram de aguardar um tropeço. Perdemos o Carioca. Se fosse pontos corridos, teríamos sido campeões. Resolveram mudar ali e entendi que talvez não fosse o momento. A prioridade naquele momento era a Libertadores. Estávamos classificados para as oitavas. O Flamengo já era tricampeão carioca e todos diziam que a prioridade era a Libertadores. Resolveram fazer a mudança naquele momento. Acho que foi uma mudança traumática para todos. Para mim e, talvez, para ela também. Realmente, no início a coisa não ficou bem digerida. Mas, após minha vinda para cá, aí sim comecei a entender melhor a coisa, que tudo acontece no momento certo. Aquele momento já tinha passado, tinha de seguir meu caminho. Minha vinda foi importante em todos os aspectos. Até para entender que minha passagem pelo Flamengo foi legal, mas que não faz mais parte da minha vida.
LNET!: Você tinha uma meta em relação a quando estaria em outro clube?
Minha ideia era começar a trabalhar de imediato. Em princípio, eu tinha algumas sondagens de fora do Brasil, mas eram só sondagens através de empresários. Era para o mundo árabe ou para o Japão. Eu tinha alguma expectativa, mas não se concretizou. As coisas foram se passando, até por não ter um empresário fixo. Várias pessoas falavam no meu nome. Talvez tenha sido um erro. A coisa não ia adiante. Mas a vida vai ensinando, vai mostrando as coisas que, de repente, não conseguiria ver. Você vai entendendo que nem tudo é como pensamos, como queremos. E essa vinda para cá foi fantástica, me alertou várias coisas. Vi que a vida continua.
LNET!: Foi você quem procurou esses empresários?
Não, me ligavam e diziam que tal clube me queria. Às vezes, nem tinha o tal clube. Perguntavam se podiam falar no meu nome. Eu dizia que sim. De repente, eram oito, nove ou dez pessoas falando no meu nome com um clube só. Acabava acontecendo um leilão, que não era interessante, me desvalorizava. Foram vários clubes. Quando o clube ficava sem treinador, ligavam 12 ou 15 pessoas para a minha casa. Aí quando esse clube arrumava treinador, sumia todo mundo. Quando mais um clube ficava sem treinador, as mesmas 15 pessoas me ligavam, entende? Eu ficava esperando acontecer, mas não acontecia. Ficava aquele jogo, em que, em princípio, você acreditava em todo mundo. Depois, vi que eram oportunistas. Acabaram me depreciando. Talvez isso tenha me prejudicado um pouco.
LNET!: Hoje você tem empresário?
Não. Vim para cá através de uma pessoa que conhecia o Brasiliense e que me indicou. Mas não tenho ainda um representante.
LNET!: Mas está procurando alguém?
Sim, estou conversando com algumas pessoas. Quando sair ou mesmo estando aqui, quero uma pessoa para me representar.
LNET!: A forte ligação com o Flamengo também o atrapalhou quando deixou o clube?
As pessoas ainda achavam que eu estava vinculado ao Flamengo. Fiquei lá minha vida toda. Outros achavam que eu estava fora do país. Quando saí, as pessoas diziam que eu assumiria outro cargo no Flamengo. Mas, naquele momento, era muito difícil. Primeiro, por questões salariais. Não tinha como reduzir meu salário. E, depois, saí campeão brasileiro. Não tinha muito cabimento voltar a ser auxiliar técnico ou trabalhar na base. Seria dar um passo atrás. E eu tinha de ir para frente. Senti que era o momento de seguir com minha carreira.
LNET!: Você acha que faltam informações sobre a sua forma de trabalho? Você acha que ficou muito marcado apenas pela união do grupo do Flamengo?
Não percebo nada assim. Muitos jogadores estavam voltando. O Adriano era uma incógnita. O Pet também estava voltando ao clube. Chegavam a dizer que ele não era jogador. Tinha o Zé Roberto, que não conseguia se firmar. O Léo Moura não conseguia render o que podia. Mas dei um padrão de jogo ao time e fui bem-sucedido. Tivemos êxito nessa forma de jogar. Vencemos jogos que diziam que não tínhamos chances. Tínhamos uma forma estabelecida de jogar e fui com ela até o fim do campeonato. Peguei um time desacreditado. Eu era um treinador desacreditado. Tínhamos 1% de chance de chegar à Libertadores. Diziam que brigaríamos para não ser rebaixados. Os resultados não eram por acaso. Vencíamos bem.
LNET!: A união daquele grupo era mesmo muito forte?
Em 2009, tínhamos mesmo um grupo fechado, em todos os sentidos. Mas, depois do Brasileiro, a vaidade que até então estava enrustida deu aquela aflorada em alguns jogadores. Chegamos em 2010 e já começamos a ter problemas extracampo. Não tanto dentro de campo, mas do lado de fora. E eram problemas que não cabiam ao treinador se desgastar e resolver. O jogador estava dentro da favela, mas eu estava na minha casa. Não posso ficar andando atrás de jogador e dizer que ele estava errado. Eu estava dentro de casa com a minha família. Cabia à direção do clube tomar uma providência. E queriam colocar isso na minha conta. Não se coloca isso na conta do treinador. Caso de polícia é resolvido pela polícia. Ou resolve a direção do clube. Não podia ficar me desgastando. Já tinha de treinar a equipe, colocar o time em campo, conseguir resultados... Dentro de campo, a responsabilidade era minha. O clube é que rescinde, multa ou manda embora.
LNET!: Que outros fatores o atrapalharam na busca por um novo clube?
Apesar das conquistas que eu tive, sou um técnico novo no mercado, né? Quando você chega, não sabe mesmo como funciona isso. Acho que tem muita indicação de treinadores. Um cara que tem um contato e indica para o amigo da confiança dele.
LNET!: Entender o mercado é, hoje, seu principal desafio?
É questão de oportunidade. Tive uma no Flamengo, depois de estar lá sete anos. Fui o treinador e me firmei. Até então, trabalhava entre a saída de um profissional e a chegada de outro. Tive uma oportunidade e saí campeão brasileiro, vice do Carioca, classificado na Libertadores... Foi um início excelente para quem está começando. Muita gente gostaria de começar dessa forma. E agora é me manter. Não se pode viver de passado também. O título brasileiro passou. A vida é assim. Chegar é fácil. Difícil é se manter.
LNET!: Em algum momento chegou a pensar em desistir?
Você se apega em Deus. Pensava que não acontecia porque não era o momento. Tenho uma família que me apoiou, me deu muita força naquele momento. Não aconteceu porque não era para ter acontecido. Você tem de se agarrar nisso, ter fé.
LNET!: Você acha que deveria ter deixado o Flamengo antes?
Acho que não. Na vida, tudo tem o momento certo. Aquele era meu momento de estar lá, conquistar o que conquistei. Acredito nisso.
LNET!: Tem alguma meta de quando vai estar num clube de ponta?
Não, mas vou trabalhar para isso. Quero fazer bons trabalhos por onde passar, para um dia ter uma oportunidade. Mas não tenho esse pensamento de planejamento. Até porque me sinto bem aqui no Brasiliense. Tenho todo apoio, tenho tudo de que preciso para trabalhar. É isso que importa: estar bem onde você está.
LNET!: Qual o seu sonho profissional?
Meu sonho é simples: dar sequência na minha carreira e, por onde passar, fazer bons trabalhos. Para mim, manter esse time na Segunda é um sonho. Seria a minha conquista, meu título. Depois, quem sabe, conversar e até ficar aqui. Mas, para isso, tenho de mostrar trabalho aqui. O importante é se sentir bem onde você está. E encontrei isso aqui. Como falei, você tem de dar retorno. E, quando cheguei, não consegui isso. Tenho de ter autocrítica.
LNET!: Você pretende um dia reatar com o Flamengo ou é uma porta já fechada?
Não é que deixei a porta fechada, mas é preciso um tempo para mim e para o Flamengo. Quem sabe um dia, daqui cinco ou seis anos? Ninguém sabe o dia de amanhã. Meu laço com a torcida está aberto. O torcedor foi maravilhoso comigo. Sou muito grato ao torcedor. Posso voltar como minha história pode ter se encerrado.
