As capitais do Nordeste faltaram ao encontro com Dilma Rousseff (PT). A começar pelo Recife, que no 1º turno de 2006 deu 61,5% dos votos para Lula e que agora brindou a candidata petista com apenas 42,9% - o pior resultado dela entre os 184 municípios pernambucanos.

Mesmo nas sete capitais nordestinas em que ficou com o primeiro lugar, os seus percentuais ficaram sempre abaixo do que somou no estado: Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Salvador (BA), São Luís (MA), Teresina (PI) e Recife. Ainda tomando o caso de Pernambuco como exemplo, Dilma teve 61,7% no estado. Em Fortaleza alcançou 50,7%, contra uma votação de 66,3% em todo o Ceará. Em Teresina conquistou 54,9%, abaixo do obtido no estado, 67%.

Em duas capitais - Maceió (AL) e Aracaju (SE) - ela foi derrotada por José Serra (PSDB), mas aí não há surpresa. O próprio Lula perdeu em ambas, contra o também tucano Geraldo Alckmin, no 1º turno de 2006. São duas cidades com um já tradicional voto anti-PT nacional.

A grande surpresa foi a votação de Marina Silva (PV), que na soma das nove capitais nordestinas ficou em segundo lugar, com 1,7 milhão de votos, cerca de 500 mil à frente de Serra, que teve 1,2 milhão. Em percentuais o placar médio foi de 44,8% para Dilma; 28,5% para Marina e 25,1%. De cada 10 votos válidos nas capitais do Nordeste, 3 foram para Marina.

Juntas, as nove cidades têm 7,6 milhões de eleitores, o correspondente a 20,2% do eleitorado do Nordeste. Marina ficou em segundo lugar em seis capitais da região: Salvador, Fortaleza, São Luís, João Pessoa, Teresina e Recife - nesta obteve 36,7% dos votos válidos (Serra, 19,4%). É talvez o resultado mais surpreendente, porque o PT está no comando da Prefeitura do Recife pelo terceiro mandato consecutivo, o governador Eduardo Campos (PSB) reelegeu-se com a maior votação proporcional do país e o presidente Lula vem à cidade com a frequência de um habitué - chegou inclusive a encerrar a campanha daqui, com um grande comício.

A "onda verde" espalhou-se por todo o país, mas quem olhasse a situação a partir desses dados iria considerar que o Recife estava blindado contra o voto pró-Marina. Não estava. Talvez a votação de Dilma abaixo do esperado na cidade reflita descontentamentos circunstanciais provocados pelas brigas internas do PT (prefeito João da Costa X João Paulo e Humberto Costa X João Paulo, autofagias conhecidas de todos) - e nesse caso a votação de Marina tenderia a ir para Dilma no segundo turno. Ou talvez reflita um descontentamento do eleitor recifense com a própria candidata petista - hipótese em que a tendência do voto seria migrar para Serra.

Da leitura dos números depreende-se que: 1) no Nordeste houve um descompasso entre a votação que Dilma conseguiu nas capitais e a que teve nos estados. Problema que pelo menos no primeiro turno nem a convocação de Lula conseguiu superar; 2) considerando-se que o Nordeste é a região onde se espera que ela coloque uma larga margem de vantagem, a situação nas capitais pode ser decisiva para as suas pretensões de vitória; 3) se Dilma não teve nestas cidades a votação esperada, José Serra também não. Com exceção de Maceió e Aracaju, a votação dele nas outras sete capitais foi percentualmente inferior à de Alckmin no 1º turno de 2006. No Recife, para citar apenas um caso, Alckmin chegou a 27% dos votos, enquanto Serra, agora, bateu nos 19,4%.

A incógnita que fica para o 2º turno é quem será mais eficaz na conquista da votação que Marina somou nas 9 capitais - um cobiçado espólio de 1,7 milhão de votos.