Após o presidente Rafael Correa retomar o controle sobre o Equador, na sexta-feira, o chefe de polícia, Freddy Martinez, renunciou ao cargo. Ele se responsabilizou pela revolta dos oficiais de polícia que aconteceu um dia antes quando Correa foi agredido e ficou encurralado em um hospital antes que tropas leais ao governo o resgatassem a tiros. Oito pessoas morreram em revoltas em todo o país.

"Um comandante que é tão desrespeitado por seus subordinados não pode permanecer no comando," disse Martinez. A estação de TV Ecuavisa disse que três altos oficiais de polícia foram detidos.

Os oficiais de polícia começaram a retornar ao trabalho na sexta-feira. Um novo chefe de polícia foi indicado e o presidente instituiu três dias de luto para lembrar os que morreram por causa dos protestos.

O exército aumentou a segurança do palácio presidencial e soldados ajudaram a proteger os bancos para evitar pilhagem.

Três presidentes já foram derrubados por protestos populares no Equador nos dez anos antes de Correa assumir o poder em 2007. E durante algumas horas na quinta-feira parecia que ele seria o próximo.

"Isso foi coordenado para criar o caos, a guerra civil, mortes, para desestabilizar o governo. Eles não conseguiram," Correa disse a enviados estrangeiros da região numa reunião que foi televisionada. O presidente chamou o evento de uma tentativa de golpe de estado.

A TV estatal também mostrou buracos de bala na camionete blindada de Correa, dizendo que o veículo foi atingido por policiais quando os soldados o retiravam do hospital na quinta à noite. "Queriam matar o presidente," disse Correa à estação de TV estatal.

Correa permanece popular e ganhou mais apoio regional na quinta, da Casa Branca a Havana. Altos diplomatas sul-americanos chegaram a Quito na sexta-feira. Até críticos do seu estilo de governo disseram que é importante que os Estados Unidos e a América Latina apoiem os líderes eleitos democraticamente.

A polícia se revoltou por causa do anúncio de planos para cortar bônus e congelar promoções como parte de uma série de medidas de austeridade que Correa tenta impor no momento em que enfrenta uma crise fiscal.

O governo disse que oito pessoas morreram, inclusive dois oficiais de polícia que foram mortos durante o tiroteio de 40 minutos que aconteceu entre policiais e tropas leais ao governo que chegaram para resgatar Correa no hospital onde ele se havia refugiado. Cinco civis morreram na cidade de Guayaquil e 274 outras pessoas ficaram feridas por causas da revolta - a maioria em Quito.

Milhares de equatorianos foram às ruas para apoiar seu líder e, ao contrário do que aconteceu em golpes de estado no passado, não havia ninguém à espera para assumir o poder.

A sobrevivência de Correa no governo e o apoio que recebeu podem aumentar sua força política de alguma forma, mas analistas crêem que o pior ainda está por vir.

Ele ainda terá de enfrentar o congresso, onde alguns membros de sua Aliança País rejeitam os cortes orçamentários.

Entenda a crise
Os distúrbios registrados no Equador têm origem na recusa dos militares em aceitar uma reforma legal proposta pelo presidente Rafael Correa para reduzir os custos do Estado. As medidas preveem a eliminação de benefícios econômicos das tropas. Além disso, o presidente também considera a dissolução do Congresso, o que lhe permitiria governar por decreto até as próximas eleições, depois que membros do próprio partido de Correa, de esquerda, bloquearam no legislativo projetos do governante.

Isso fez com que centenas de agentes das forças de segurança do país saíssem às ruas da capital Quito para protestar. O aeroporto internacional chegou a ser fechado. No principal regimento da cidade, Correa tentou abafar o levante. Houve confusão, e o presidente foi agredido e atingido com bombas de gás. Correa precisou ser levado a um hospital para ser atendido. De lá, disse que havia uma tentativa de golpe de Estado. Foi declarado estado de exceção no Equador - com militares convocados para garantir a segurança nas ruas. Mesmo assim, milhares de pessoas saíram às ruas da cidade para apoiar o presidente equatoriano.

Após passar mais de 10 horas no hospital, Correa foi resgatado do prédio cercado por rebeldes. Na operação, houve troca de tiros entre militares e policiais. Correa foi levado para o Palácio Presidencial, de onde discursou para milhares de simpatizantes. Segundo a Cruz Vermelha do Equador, duas pessoas morreram e mais de 70 ficaram feridas nos distúrbios.