Enquanto os países desenvolvidos ensaiam uma lenta e gradual recuperação econômica, após a crise financeira mundial, duas das nações mais atingidas pela recessão - Estados Unidos e Reino Unido - lutam para lidar com um problema que afeta diretamente os mais pobres: a falta de casas para pessoas de baixa renda.
De acordo com o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA (HUD, na sigla em inglês), o país perdeu mais de 150 mil unidades de casas públicas destinadas à população de baixa renda nos últimos anos, cenário que ficou ainda mais grave após a quebra do mercado imobiliário americano em 2008. Por causa do calote generalizado, muitos proprietários retiraram seus imóveis dos programas de habitação popular do governo.
A onda de demissões que se seguiu à crise nos EUA tornou relativamente comum a cena de pessoas que dormiam em seus carros, após perderem as casas por falta de pagamento. A situação chegava a ser irônica: os preços dos imóveis despencavam por causa da crise, mas pouca gente tinha dinheiro para bancá-los.
No Reino Unido, o mercado imobiliário sozinho foi responsável por um terço da queda na economia do país durante a recessão, de acordo com estudo da universidade de Oxford. Mais de 1,7 milhão de pessoas aguardam em média seis anos pela chamada casa acessível (subsidiada pelo governo) apenas na Inglaterra.
Mudar sistema é desafio
Diante desse cenário, o que os programas governamentais - que consistem basicamente em financiar e incentivar empresas a construir casas populares - podem fazer? Para Shaun Donovan, secretário do HUD nos EUA, um dos maiores desafios é desburocratizar o sistema.
- São muitas regras, poucos recursos e muito tempo lutando para fazer pequenos consertos em um sistema falho.
Em discurso no último dia 13, Donovan elogiou as iniciativas do presidente Barack Obama para recuperar os programas de habitação popular, mas disse que o dinheiro disponível até agora cobre apenas a ponta do iceberg.
- Com uma necessidade estimada em até R$ 51 bilhões (US$ 30 bilhões) para financiar habitações populares, R$ 6,8 bilhões (US$ 4 bilhões destinados pelo governo) são apenas a ponta do iceberg.
Casa popular britânica é referência
Apesar dos desafios de lidar com o déficit habitacional e os altos preços de imóveis - o valor mínimo de entrada supera em quase dez vezes o salário médio do país - as casas populares britânicas são referência em qualidade.
Nesta semana, a Agência de Casas e Comunidades (HCA, em inglês) inaugurou na cidade de Newcastle um conjunto de residências térreas feito especialmente para idosos e pessoas com deficiência. O empreendimento, que recebeu mais de R$ 1 milhão em fundos do governo, deixou Jeff Gibson encantado.
- Isto parece o palácio de Buckingham comparado à nossa casa antiga. É adorável, quieto e quentinho. Minha mulher tem um problema de joelho e era muito difícil para ela subir escadas, então esta casa facilita muito as coisas.
Um das premissas dos projetos de casas populares no Reino Unido é construir imóveis que sejam equivalentes às casas que um cidadão de renda média poderia comprar. Essa foi a maneira encontrada pelo governo para evitar que a diferença de renda se transforma em estigma social também na habitação.