Após divulgado um vídeo em que três homens encapuzados do grupo separatista basco ETA anunciaram interromper por tempo indeterminado os ataques armados iniciados há 40 anos, o governo espanhol se pronunciou com cautela à imprensa espanhola. Fontes governamentais afirmaram que se trata de “um passo adiante”, mas insistiram que um otimismo real depende da entrega definitiva das armas pelo ETA.
Esta não foi a primeira vez que o ETA garantiu abrir mão da luta armada. O grupo, responsável pela morte de cerca de 825 pessoas em mais de 40 anos de violência pela independência do país basco, já havia anunciado um cessar-fogo permanente em 2006. No entanto, voltou a atacar em dezembro do mesmo ano, explodindo um carro-bomba em Madri que deixou dois mortos. Em agosto de 2009, voltou a declarar o fim de suas atividades terroristas na Espanha. Porém, seu último ataque mortal foi contra um policial francês em 16 de março de 2010.
Antes de se tornar pública a mais recente decisão de cessar-fogo do ETA, o governo espanhol já tinha dito que o único anúncio que esperava do grupo era que deixaria as armas e abandonaria definitivamente a violência. Marcados pelo ceticismo, partidos políticos e vítimas do terrorismo ouvidos pelo jornal espanhol El País neste domingo classificaram a mensagem como "insuficiente". Por outro lado, a iniciativa pode significar o reconhecimento do próprio grupo terrorista de que está mais fraco, após perder inúmeros líderes nos últimos anos.
O ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba, já está em contato com os grupos políticos e com o governo Basco, tratando sobre o alcance e a resposta ao comunicado da organização. A cúpula do ministério ainda analisa o texto. Enquanto isso, a secretária de Organização do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, o partido governista), Leire Pajín, afirmou que o gesto do ETA é "claramente insuficiente". "A sociedade espanhola, sob uma democracia como a nossa, exige do grupo terrorista algo muito claro: que abandonem definitivamente as armas e se dissolvam."
Em seu anúncio, o ETA deixa muitas questões em aberto. Não precisa, por exemplo, se a trégua é permanente e verificável por instâncias internacionais, como é reclamado desde março. Assim, ainda está longe do que reclama o governo e os partidos democráticos: o cessar definitivo das armas. Mas este pode ser apenas o primeiro comunicado de um processo de explicações e esclarecimentos.
Em vídeo, os representantes do ETA afirmam que há alguns meses tomaram a decisão de não mais adotar “ações ofensivas armadas” para “por em marcha um processo democrático”. Um dos encapuzados diz que o objetivo é que, “através do diálogo e da negociação, os cidadãos bascos possam decidir o próprio futuro de forma livre e democrática”. O grupo ainda acrescenta que “se o governo da Espanha tiver vontade, o ETA está disposto, hoje como ontem, a concordar com condições democráticas”.
Terrorismo - Em agosto do ano passado, o grupo separatista basco ETA (Euskadi Ta Azkatasuna, que significa Pátria Basca e Liberdade no dialeto local), completou 50 anos. Nesse período, cometeu 825 assassinatos, apresentando como justificativa a luta contra o governo da Espanha pela independência de um território de 20.000 km² e população que mal supera 2 milhões de habitantes. Para "celebrar" o cinquentenário, os terroristas fizeram uma série de atentados em Maiorca, Burgos, Durango e Arrigorriaga.
Desde 1968, os integrantes do grupo passaram a adotar a violência com método. Financiado por sequestros, roubos e extorsão, o ETA levou a cabo uma longa lista de atentados à bomba e assassinatos, muitos deles a tiros. Suas bases e áreas de atuação se encontram principalmente em regiões autônomas bascas no norte da Espanha e sul da França. O grupo já atacou áreas turísticas, porém, seus principais alvos são as autoridades e forças de segurança espanholas e francesas. O auge da trajetória sangrenta dos radicais bascos foi o assassinato do primeiro-ministro Carrero Blanco, em Madri, em 1973.
A organização é classificada como grupo terrorista pelos governos da Espanha, França e Estados Unidos, União Européia e pela Anistia Internacional. Contudo, conta com ajuda externa de alguns países, como autorização para bases de treinamento na Líbia, Líbano e Nicarágua, além de abrigo em Cuba e em parte da América do Sul.
Negociações - Foram várias as tentativas das autoridades espanholas e francesas de negociar com os terroristas do ETA. Em 1998, o grupo anunciou um cessar-fogo unilateral por tempo indefinido - a trégua durou 14 meses. A partir de 2000, diversos líderes terroristas foram capturados, e o grupo começou a ficar enfraquecido. Os partidos políticos ligados ao ETA também foram colocados na ilegalidade na Espanha, mas o grupo permaneceu com os ataques de violência. Em março de 2006, a organização declarou mais um cessar-fogo, que foi rompido em dezembro do mesmo ano.
Até pouco tempo, discutia-se se o grupo era uma força em vias de extinção ou simplesmente aguardava o momento de atacar de novo. Suas últimas aparições mostram que, apesar de sua capacidade de ação ser bastante inferior à de alguns anos atrás, o grupo optou por persistir no terrorismo. A esperança de autoridades locais e mundiais está no fato de que cada vez mais membros veteranos do ETA e mais eleitores separatistas bascos estarem se distanciando da violência, possibilitando a prevalência do partido independentista basco Aralar, que condena o terrorismo.
