Goretti Brandão
 

Dia 21 de junho o site Filmologia (www.filmologia.com.br) estreou na internet, sua primeira edição: # 00. Trata-se do primeiro site alagoano e talvez o primeiro, nordestino, dedicado ao cinema. Agora em sua segunda edição: # 01, traz como foco: O cinema do cineasta japonês Hiroshi Teshigahara. A revista apresenta textos sob forma de artigos e outros expedientes opinativos acerca da obra de Teshigahara, onde é feita a análise de filmes a partir de diversos vieses, todos, sobre a ótica do estudo que se volta para a influência do cinema na sociedade, no pensamento, na moral, o que traduz o significado da palavra filmologia.

Um cinema de identidades é o título do editorial dos jornalistas Ranieri Brandão e Ricardo Lessa Filho (http://www.filmologia.com.br/?p+797).

Pensando o cinema: Uma imagem, duas, três imagens, tomadas, cortes, planos; eis a cena cinematográfica. Dentro das salas de cinema, um momento vai se preparando, aos poucos, dentro da gente. Um ritual que começa quando as luzes se apagam e se potencializa quando a tela se ilumina. É como sair do mundo real e entrar em outro não menos real, onde os filmes nos contarão histórias. As nossas próprias histórias de sucessos e fracassos, perdas e ganhos, que surgem ali, camufladas pelo glamour que só o cinema sabe fazer existir com tamanha maestria. A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

As imagens que surgem fixam os nossos olhos e nos prende. Chegam a nos hipnotizar, dependendo da cena. A câmera por trás da imagem subjetivamente nos guia, nos convida filme adentro. Levam-nos pelos olhos e nos tomam, muitas vezes, do lugar de expectadores e nos mergulham, sem que saibamos como, dentro das cenas. Vemos com olhos de raios-X, sabemos sobre coisas que estão acontecendo ou que virão a acontecer dentro das cenas que se desenrolam, como privilegiados advinhos, com direito a previsões sobre a vida dos personagens. Sofremos a agonia dos amores perdidos, a alegria dos encontros, o frêmito dos beijos ardentes.

Ali as nossas dores e alegrias se configuram, e a gente pode chorá-las ou rir delas sem medo, protegidos pela meia-luz da sala de projeção. Somos parte da audiência anônima, que se faz silenciosa no instante do suspense, assistindo, a revelação de nossos dramas pessoais, sem que tenhamos o compromisso de encenarmos, nós mesmos, nossas próprias versões da vida. Aquelas onde mergulhamos nas dores físicas e da alma, aquelas das ilusões partidas, as da festividade ruidosa, outras de dúvidas que nos assaltam. É um leque interminável de emoções e sentimentos. Todos de alguma forma, por uma ou inúmeras razões, sendo passíveis de se reconhecerem nas tramas e dramas do filme.

Vamos ao cinema pra ver a nós mesmos no outro, naquele personagem que diz, às vezes, aquilo que negamos dizer, mas que temos vontade. Ou que faz aquilo que desejamos fazer, mas não temos coragem. O filme é uma possibilidade que se tem de trazer o inconsciente à consciência, porque é capaz de desdobrar a nossa vida, de expor seus conteúdos mais escondidos, sob a forma e através da magia da luz sobre a tela. Chorar e rir e se emocionar de feitos que sejam, ou que possam ser feitos por nós. Vamos ao cinema, para dar vazão aos sonhos e aos desejos. Ou compensar unilateralidades pessoais. Buscamos a identificação nos arquétipos do Herói, do Velho, da Grande Mãe e de tantos outros. Esses padrões de comportamento que sempre se nos apresentam em cena, e que parecem dizer sempre alguma coisa sobre os nossos comportamentos.

Alguns de nós vamos ao cinema, ver a si mesmos e mais além. Vamos nos ver dentro das engrenagens do mundo. Os filmes são páginas de um livro onde as imagens se oferecem para que sejamos lidos. Em sua segunda edição, a Revista Filmologia confirma a sua dedicação e seriedade sobre a leitura das imagens cinematográficas e é uma excelente indicação para os amantes do cinema.