Goretti Brandão

O Engenho de Folguedos é ressuscitado, como bem noticiou o jornalista Roberto Amorim. Todas as quartas, o projeto criado pelo saudoso folclorista Ranilson França, falecido em agosto de 2006, trará à Praça dos Martírios, às 20h, a apresentação de artistas populares, que segundo Antônio Pedro, universitário, 23 anos, “é o que temos de melhor e o que melhor nos representa”. Essas informações foram colhidas enquanto lia em um outro jornal online, a matéria de cultura de Amorim.

A citação do estudante revela uma questão que sempre é diluída, passa despercebida, ficando à margem das discussões, quando o assunto é cultura popular. Isso me lembra o excelente livro do pernambucano Antônio Paulo Rezende: (Des) Encantos Modernos, onde ele traz para o cenário cultural, aquilo que é polêmico desde a década de 1920. Mais precisamente entre os intelectuais paulistas e nordestinos, como resultado das divergências surgidas após a Semana da Arte Moderna (1922).

As discussões, desde então, entre outras, permanecem no terreno do novo e do tradicional. De cultura popular e popularidade. Na leitura que se faz a respeito. Conceitos que surgiram a partir do movimento modernista. Sempre que se fala em folguedos, sou levada a atentar para o fato de refletir sobre até que ponto esse ressuscitar – importantíssimo, do ponto de vista de termos referências da nossa cultura popular, genuína manifestação da criatividade do povo – ocupa o seu devido espaço, como representação da arte popular, propriamente participada.

Até que ponto essas apresentações figuram como algo velho que precisa estar sendo visitado, mas sem a necessária incorporação desses costumes, à brincadeira, à diversão das pessoas? Diante do modernismo, tão em voga, não seriam essas apresentações parte das relíquias ou figuram como peças de um museu? Estaríamos vivendo as contradições presentes na modernidade?. O que é tradicional parece ser lido pelas novas gerações, parece até ser difundido para elas, como algo velho, que precisa ser preservado. Unicamente.

Em outras palavras, diante dos folguedos, da atuação dos artistas populares, pode-se ler: “Olha pessoal, isso aqui é Alagoas. É a alma alagoana!” Esse jeito de ser alagoano pode ser visto todas as quartas-feiras, às 20h na Praça dos Martírios. No mais, a cultura popular está resumida e reduzida a essas apresentações. Quem aprecia, vai lá e assiste, mas, não participa. O alagoano mais voltado para o folclore da sua terra, num gesto que revela uma preocupação intelectual, vai assistir o artista popular dançar.

É algo que sai daquilo que seria naturalidade, diversão, com a qual um povo manifesta a graça, a força e a pujança, através da arte como criação coletiva, para se tornar algo exótico. Coisa pra se ver. Haverá algum projeto do governo em parceria com as escolas, para que essas manifestações estejam nas pautas das diversões escolares? Tomara que sim. O alagoano precisa brincar. Precisa vestir, desde criança, a roupa azul ou encarnada do Pastoril. Precisa dançar a Chegança e o Reisado. Precisa conhecer o Guerreiro, ser Mateus, ou a estrela Dalva ou o rei, a rainha.

Precisa, também, começar a fazer a sincronia, a nova linguagem entre o novo e o tradicional, sempre que for imperativo, como resultado da própria dialética da vida. Os folguedos não podem ser vistos como peças de museu para agradar aos amantes da tradição, mas precisam estar de posse da alegria popular e como manifestação dessa alegria da gente de Alagoas, deve refletir o gosto pela brincadeira. Para isso, todas as praças, todas as noites, deveriam ser os locais dos folguedos.

As pessoas deveriam entrar na dança e não apenas assistirem os artistas dançarem. As novas gerações precisam tomar posse dessa alegria. A praça e a festa popular pertence a todos.