Goretti Brandão


 Goretti Brandão

Sequenciando a implantação do projeto que leva a UFAL para o sertão, o pólo Santana do Ipanema, tem sua aula inaugural no Tênis Clube Santanense. Com a presença da reitora Ana Dayse Rezende Dória, e da sua comitiva, além dos professores e calouros, a festividade teve início com a fala da jornalista, professora do IFAL, Instituto Federal de Alagoas, Rossana Gaia, que em setembro estará lançando o livro, Santana Glocal, publicado pela Edufal, como co-organizadora, junto ao Dr. José Marques de Melo. Para um público de aproximadamente 160 pessoas, Rossana fez a abordagem do livro: sobre a emergência desse sertão glocal, além de ressaltar a importância da obra para a auto-estima das futuras gerações, ressalvando a memória das ilustres figuras santanenses. Ocasião perfeita para falar sobre o livro, no instante em que Santana do Ipanema se torna um pólo educativo do curso superior do sertão alagoano.

Um importante momento durante a apresentação do seu trabalho, aconteceu quando Rossana lembrou a velha e costumeira utilização de símbolos como parte da imagética do lugar, que remetem o que hoje é lembrança, à idéia de um sertão dos anos 50, do século XX, e que trazem à nossa memória, os signos de um sertão que ficou lá atrás e que não mais representa a realidade atual. A mesma imagética, de homens e mulheres esquálidos, desvalidos, fugitivos da seca. Essa questão levantada é interessante, porque é preciso que se atualizem os símbolos que de fato representem a nova realidade do sertão alagoano. Acostumamo-nos às imagens que Graciliano Ramos retrata tão bem em sua obra Vidas Secas, a tal ponto, que nos parece impossível retratar o sertão sem que nos apropriemos da imagem do mandacaru, do chão tórrido, da cachorra Baleia, minguada e quase à morte, do sol à pino, da procissão dos famintos pelas áridas estradas.

Continuamos reproduzindo uma memória de um tempo passado e difundindo através dessas imagens, a miséria da seca, com as cores de uma história que insistentemente teimamos em continuar usando em nossas manifestações artísticas. É o estigma do sertanejo castigado pela estiagem, que nos acostumamos a reproduzir. Hoje o êxodo rural se dá como consequência de outros fatores. O matuto não está ilhado em seu mundo, vivendo uma realidade alheia ao que se passa em seu entorno. Ele tem televisão. A motocicleta substituiu o cavalo, a energia elétrica dissipou os mitos, quebrou as lendas, varreu para debaixo do tapete a ingenuidade do homem do campo, diminuiu a beleza daquele céu estrelado sobre nossas noites sertanejas. Basta que adentremos pelo sertão, ali pelos lados de Senador Rui Palmeira, onde o verão é abrasador, para que vejamos que apesar longas estiagens, da paisagem sempre igual, os símbolos enfraqueceram, estão desgastados.

O livro Sertão Glocal, pelo que entendi da fala de Rossana Gaia, propõe um novo olhar que se instaura sobre um novo tempo: o presente. Este, referenciado e reverenciando o passado. Unindo um e outro, trazendo a discussão feita a partir dos resultados dessa interdiscursividade, e pontuando um local futuro, onde o avanço civilizatório tem a sua extensão definida no mundo globalizado. Chega à boa hora. Estimula a noção de valor cultural, intelectual, do povo santanense. De ter o prazer no reconhecimento do seu chão natal, onde entre outras coisas, a identificação com as figuras ilustres, por exemplo, não menos simbólicas, remetem a identificação com o próprio sertão,  na alma e no orgulho de ser santanense.
Santana do Ipanema está de parabéns: Pelo lançamento do livro, em breve, e pela chegada da Universidade Federal de Alagoas. Que ambos sirvam para o engrandecimento da cidade, para o enriquecimento do presente e das futuras gerações.