A Polícia Civil e a Polícia Técnico-Científica de São Paulo devem realizar durante a tarde de quarta-feira (11) uma espécie de primeira parte da ‘reconstituição’ do caso Mércia Nakashima.
De acordo com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, a vistoria, como é chamado o trabalho que peritos e policiais deverão fazer na quarta em Guarulhos, na Grande São Paulo, será baseada no depoimento do advogado e policial militar aposentado Mizael Bispo de Souza, ex-namorado e ex-sócio da advogada assassinada. Segundo a perícia, a presença de Mizael é desnecessária. Segundo o advogado de Mizael, Samir Haddad Júnior, seu cliente não vai comparecer.
Réu no processo no qual é acusado de matar Mércia juntamente com o vigia Evandro Bezerra Silva, Mizael nega o crime. Ele alega que esteve com uma mulher, que seria uma garota de programa, no dia 23 de maio, quando Mércia desapareceu da casa dos avós, em Guarulhos. O corpo de Mércia foi achado em 11 de junho numa represa em Nazaré Paulista, no interior do estado de SP. Um dia antes, o veículo dela havia sido localizado submerso no mesmo local.
A vistoria foi solicitada ao delegado Antônio de Olim, do DHPP, pelo promotor Rodrigo Merli Antunes. "Pedi esse trabalho desde a casa do principal suspeito. Quero saber se a versão dele [Mizael] é compatível com as informações das antenas de telefonia e do rastreador do carro dele", disse Merli Antunes, por telefone ao G1, nesta terça-feira (10). "Apesar de ser uma vistoria, será uma espécie de reconstituição".
De acordo com a investigação e a perícia, esses dados técnicos mostram que Mizael ligou diversas vezes para Evandro no dia em que Mércia sumiu. E que ambos estavam perto da cena do crime.
Os peritos vão confrontar as informações da versão apresentada por Mizael com os dados das quebras dos sigilos telefônicos dos réus e da vítima, além de informações obtidas do rastreador do carro do advogado.
“O meu laudo vai sair como vistoria e não como reconstituição, apesar de poder ser interpretada como uma. Será uma vistoria do local a partir do que Mizael falou e de dados das antenas de telefonia e grade de ligações dos telefones dos envolvidos . Vamos fotografar, por exemplo, onde o carro dele esteve, em frente ao número tal. Vou levar desenhista e fotógrafo”, afirmou o perito Renato Pattoli, do DHPP. "Mas não deveremos pedir informações aos envolvidos, como geralmente ocorre numa reconstituição."
De acordo com fontes policiais que participam da investigação, o DHPP vai usar uma câmera para filmar o possível trajeto que Mizael afirmou ter feito no dia 23 de maio. Também irão registrar o caminho que ele teria feito a partir das antenas de telefonia e GPS do carro. Ambas as versões são conflitantes. Tanto o exame da vistoria quanto as filmagens serão remetidas ao Ministério Público e anexadas ao processo.
Segundo a polícia, policiais farão as vezes dos acusados, possíveis envolvidos e da vítima. Um policial representará Mizael, outro, possivelmente, Evandro, e uma investigadora vai simular ser Mércia.
Reconstituição na represa
Ainda, segundo Pattoli, a reconstituição oficial será feita a partir da represa de Nazaré Paulista, onde o corpo e o carro da advogada foram achados. Essa reprodução simulada será baseada no depoimento do pescador que afirma ter visto o Honda Fit prata da vítima afundar na água por volta das 19h30 do dia 23 de maio, uma hora depois de Mércia ter deixado a casa dos avós na Grande SP. Além disso, a testemunha declarou ter visto um homem alto sair do veículo e disse ter ouvido gritos de desespero de uma mulher naquela noite de céu sem nuvens e com lua.
Por isso, a reconstituição será feita nas mesmas condições do dia em que a vítima desapareceu: à noite, com lua. O pescador será chamado para participar dos trabalhos dos policiais e peritos do DHPP.
Mizael, apontado como o mentor e executor do crime, é acusado por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e dificultar a defesa da vítima). Evandro também foi acusado pelo assassinato, mas com duas qualificadoras (motivo torpe e dificultar a defesa da vítima), sendo citado pelo promotor como "partícipe".
Entenda o caso
Depois de desaparecer em 23 de maio da casa dos avós, em Guarulhos, Mércia foi achada morta em 11 de junho na represa em Nazaré Paulista. O veículo onde ela estava havia sido localizado submerso um dia antes. Segundo a perícia, a advogada foi agredida, baleada, desmaiou e morreu afogada dentro do próprio carro no mesmo dia em que sumiu. Ela não sabia nadar.
Para o DHPP, Mizael matou a ex por ciúmes e o vigilante o ajudou na fuga. Mizael alega inocência. Evandro, que chegou a acusar o patrão e dizer que o ajudou a fugir, voltou atrás e falou que mentiu e confessou um crime do qual não participou porque foi torturado.
Ainda segundo a polícia, Mizael e Evandro trocaram diversos telefonemas combinando o crime. A polícia chegou a essa informação a partir da quebra dos sigilos telefônicos dos dois. O rastreador do carro do ex também mostrou que ele esteve próximo ao local onde Mércia foi achada.