Goretti Brandão
Um rápido olhar sobre as manchetes da primeira página de qualquer jornal, dá um panorama geral de como andam as coisas em nosso conhecido mundo ‘civilizado’. Assassinatos de casais envolvidos com furtos e drogas, crianças que presenciam a morte dos pais, a vez da nudez de tal atriz ou tal modelo ser estampada publicamente, crimes onde maridos matam esposas como se matassem formigas, investigações sobre vereadores suspeitos de estarem envolvidos com superfaturamento de obras. Aí está a amostra de algumas informações diárias. Tudo é corriqueiro. A gente lê e logo esquece. Logo vem outra notícia que é incinerada para que outra ocupe o seu lugar. Rapidamente a informação é pulverizada. É um ciclo vicioso. Não há tempo para que o leitor faça qualquer reflexão sobre aquilo do qual é informado. Consumimos o fato, como ‘bons cidadãos’ que fazem a lição de casa, e depois viramos a página ou acessamos outro conteúdo.
É necessário que paremos um pouco para refletirmos sobre os acontecimentos. A rapidez com as quais as tecnologias da informação se processam, vão-nos acostumando a sermos meros leitores, ouvintes ou telespectadores das notícias, como se entre nós e elas, houvesse uma redoma que nos protege ou como se fôssemos habitantes de um universo paralelo. É como se estivéssemos de um lado, e os acontecimentos, muitas vezes, próximos, até demais, da gente, do outro. Parece que assistimos cenas de filmes, quando na realidade estamos assistindo as imagens de um mundo confuso, dentro, fora e em torno de nós. O que vemos é a realidade do nosso tempo. E o que vamos fazer diante dessa realidade onde a vida vale cada vez menos?
Estamos apreciando toda a sorte de animosidades e apenas, quando temos tempo, comentamos com o vizinho, com um colega do trabalho, sobre as imagens. Apenas sobre elas. Comentar um fato, pura e simplesmente não quer dizer que estejamos colocando em prática a nossa capacidade de reflexão. Quais serão as consequências das ações humanas atuais, para o futuro mundo que nossos filhos e netos aguardam? Como se não bastasse tais coisas, os poderes constituídos e que são representativos dos direitos do cidadão, vão tomando medidas e fazendo e aprovando leis que deveriam nos preocupar a todos.
Um exemplo disso está na revista Veja, de circulação nacional, em sua edição 2174 – ano 43 – nº 29. A sua manchete de capa é uma pergunta: Mas nem uma palmadinha? Vai ser lei, mas a educação e a felicidade deles ainda dependem do pulso dos pais. A capa traz a imagem de uma criança pequena, de costas, com as mãozinhas no bumbum. Muito polêmicas, essas leis se intrometem praticamente no pátrio poder. Vigia e tolhe a educação dos pais sobre as crianças. Uma palmada na hora certa nunca fez mal a ninguém. Perdoem-me os defensores de plantão dessa lei, mas convém que o bom senso e o equilíbrio sejam os pressupostos norteadores da decisão dos pais, quanto à criação dos seus filhos.
Sou de uma geração na qual, palmadas na hora certa não foram economizadas e não sou nenhuma delinqüente, revoltada ou trago traumas por isso. O abuso do poder sobre as crianças é inadmissível, como o é em qualquer situação, para qualquer ser humano, mas essa ingerência que tira aos pais seus direitos de educar a partir dos seus próprios sensos, acho isso um absurdo!. Não é por aí que questões e problemas que envolvem a educação das pessoas será resolvido.
Para tudo, ‘fabrica-se’ uma lei disponível, que muito mais do que ajudar a detectar as falhas na educação das crianças, prejudica muito mais as relações familiares. Fica uma sensação de impotência, por parte das famílias, porque estamos sendo invadidos. Até quando essas leis e outras mais, resolveram os problemas sociais?. Na verdade é possível que essa medida jogue as crianças contra os pais. E dentro de um padrão normal de convivência entre pais e filhos, a liberdade de educar uma criança está sendo negada aos seus genitores.
Por trás de tudo o que vem acontecendo, existem vazios na vida que não estão sendo preenchidos. Existe muita injustiça, muito desemprego, muita exclusão social. Existe um sistema que funciona em torno do mercado, do consumo, do prazer imediato, do ideal de posse, sobre tudo aquilo que é apontado como capaz de trazer felicidade para as pessoas. O problema não começa na família, mas na estrutura social completamente desumana, que faz nascer a delinqüência, a inadequação das pessoas às noções sociais que funcionam, que são impostas, quer queiramos ou não. A família é apenas o receptáculo e é o local onde a materialidade dessa desestrutura social é manifesta. Ela é o palco onde são reproduzidas as injustiças, o abuso do poder dos mais fortes sobre os mais fracos, ali as nossas neuroses se apresentam.
Certamente não é uma lei como essa que fará com que as manchetes de jornais, de todos os dias, apresentem notícias diferentes. Nem será por ela que a sociedade se tornará mais harmônica e menos violenta . É provável até que fiquemos, pais e filhos, ainda mais confusos. Cada um de um lado da rinha, como estranhos. Nisso, infelizmente, eu posso apostar.