O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, toma posse neste sábado (6) em meio a uma crise diplomática com a vizinha Venezuela, que cortou relações com Bogotá após ter sido acusada de abrigar guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em seu território.

Neste contexto, “o Brasil pode jogar um papel importante para criar um cenário de confiança internacional”, afirma o colombiano Jorge Iván Cuervo, professor de políticas públicas da Universidade Externado, de Bogotá.
Ex-ministro da Defesa de Álvaro Uribe, o novo presidente “dá muito mais atenção à pressão internacional”, afirma o professor. “[Santos] é um homem do mundo, enquanto Uribe é um provinciano, por isso suas prioridades era focadas na agenda interna”, disse o analista em entrevista ao G1.
É necessário criar confiança e, para Santos, ficará difícil evitar o debate sobre as denúncias das Farc em território venezuelano. Enquanto esse tema não for superado, dificilmente as relações se normalizarão"
Jorge Iván Cuervo, professor de políticas públicas na Universidade Externado, de Bogotá

Em movimento para tentar amenizar a crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu na sexta-feira com o venezuelano Hugo Chávez, antes de participar da posse neste sábado. Em uma sinalização positiva, Chávez também anunciou que enviará o chanceler venezuelano à cerimônia.

Para Cuervo, no entanto, é pouco provável que as relações entre os dois países se restabeleçam de imediato. “É necessário criar confiança e, para Santos, ficará difícil evitar o debate sobre as denúncias das Farc em território venezuelano. Enquanto esse tema não for superado, dificilmente as relações se normalizarão”, diz.

Pragmático, o novo presidente colombiano sabe que recuperar o mercado bilateral com o país vizinho ajudará nas suas expectativas de crescimento e, na opinião do professor, deverá deixar os outros temas a serem resolvidos em cenários multilaterais.
Por outro lado, afirma Cuervo, o ex-ministro da Defesa certamente dará continuidade à política de repressão aos grupos paramilitares de Uribe. “Ele sabe que as negociações de paz não avançarão sem um cessar-fogo e o fim dos sequestros, exigências que não se sabe se as Farc aceitam.”

Antes visto como símbolo da política de segurança do antecessor, nas últimas semanas Santos tem procurado se desfazer da imagem do ministro que estava sempre preparado para a guerra. Manteve-se afastado da crise, ao menos publicamente.

“A atitude dele mudou porque uma coisa é ser ministro da Defesa em um país como um conflito armado como a Colômbia, e outra muito diferente é ser candidato e agora chefe de Estado. Quando ministro, tinha que se mostrar duro, agora como um político, [deve se mostrar] capaz de manejar vários cenários e interagir com diferentes atores”, diz o analista colombiano.

Futuro de Uribe
Já o futuro político de Uribe, que deixa o cargo neste sábado, ainda é incerto. Como Lula, o colombiano chegou a alcançar níveis de aprovação que beiraram os 80%, em grande parte graças ao cerco que impôs à guerrilha desde que chegou ao poder, há oito anos.

Para Jorge Iván Cuervo, o mais provável é que Uribe lidere a consolidação de uma força de direita no país, caso Santos não interrompa o plano convidando-o para um cargo diplomático. “É possível que Santos o desative tanto por razões de segurança como para que não tenha que debater todas suas decisões com um ex-presidente que certamente buscará estar em primeiro plano para discutir todos os temas”, prevê.

Como terceira alternativa, o presidente de saída também pode ser convidado para ser comentarista na mídia local -que já demonstraram interesse em oferecer a ele um espaço de opinião-, e declarou ainda que não descarta se candidatar a prefeito de Bogotá.