A escritora Isabel Allende participou nesta quinta-feira (5) de um bate-papo com o jornalista Humberto Werneck na Flip, em Paraty. Durante cerca de uma hora de conversa, Allende respondeu quase todas as questões de forma direta e sempre bem-humorada. Quase:
"Não me pergunte sobre o meu aniversário", avisou de pronto a escritora de "A casa dos espíritos", que completou 68 anos no último dia 2 de agosto. "Estou numa idade em que não se mencionam mais os aniversários."
Allende, que está no país para lançar seu 18º livro, o romance histórico "A ilha sob o mar", também se recusou a responder mais uma pergunta: "Não me pergunte sobre o que é o meu próximo livro", emendou, logo após confirmar que, sim, como tem feito tradicional e religiosamente nos dias 8 de janeiro, já começou a escrever uma nova obra. "Para mim escrever nunca é fácil. Cada livro tem seus próprios problemas e começá-lo sempre custa muito", comentou a autora, que hoje vive nos EUA. "Escrevo em espanhol, não posso dividir o livro com ninguém. É um processo solitário, inseguro, cheio de dúvidas."
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'Spanglish'
Quanto ao marido, que é americano, Allende diz que ele não ajuda muito nesse aspecto. "Falo muito em inglês com um marido que acha que fala espanhol. Isso é uma tragédia, porque posso acabar escrevendo como ele fala", brinca a escritora, segundo quem a língua oficial em casa é o "spanglish". "Quando brigamos, ele fala em castelhano para que eu entenda, e eu grito em inglês para que ele entenda!", completou, levando entrevistador e plateia às gargalhadas.
Provocada por Werneck, que lembrou de uma outra ocasião em que Allende teria dito que costumava sonhar com Antonio Banderas - ator que está na adaptação para o cinema de seu livro "A casa dos espíritos" -, a escritora não titubeou. "Sim. Mas ele também já está meio velho... Acho que seria bom para um sábado à tarde."
Sobre quem a viveria em um hipotético filme sobre a sua vida, Allende também mostrou ter uma (nova) resposta na ponta da língua: "Penélope Cruz." Mas não seria Sonia Braga, como disse em outra entrevista, provocou Werneck. "Era Sonia Braga, mas agora já existe a Penélope Cruz. Na verdade, eu queria uma atriz ruiva, alta e de pernas grandes, mas isso seria um pouco estranho."
Isabel Allende na FlipO jornalista Humberto Werneck conversa com Isabel
Allende na Flip (Foto: Reprodução)
Abaixo a testosterona
Feminista declarada, Allende disse que nunca entendeu o feminismo "como uma guerra contra os homens", mas usou exemplos práticos (e generalizantes) para justificar algumas batalhas. "A principal causa de violência no mundo é a testosterona. Os maiores exemplos de violência partem dos homens, e a maior parte dos crimes são cometidos por eles", pregou. "Acredito que a solução seria cortar [a testosterona] logo cedo, quando nasce, ou então injetar estrogênio nele."
Entre as diversas anedotas que contou sobre sua vida no Chile estavam o episódio em que apontou "por engano" um fuzil para o tio Salvador Allende e o dia em que foi chamada para reconhecer um cadáver e conheceu seu pai verdadeiro pelo primeira e última vez. Mais marcante ainda, relatou, foi seu encontro com o escritor Pablo Neruda.
"Ele já estava bem velhinho e com a saúde debilitada e me chamou para entrevistá-lo. Fui me sentindo como se fosse a melhor jornalista do Chile", recorda a escritora, que dos 17 aos 33 trabalhou como jornalista no país. "Quando cheguei lá ele me chamou de péssima jornalista, mas me sugereiu: por que não passa para a literatura para poder continuar contando as suas mentiras?"