Os rachas, ou pegas, já fizeram parte do cotidiano carioca, mas o aumento do número de câmeras na cidade fez com que os amantes desse divertimento arriscado e proibido buscassem outros lugares para correr. Isolados em sítios no interior ou em áreas desertas do estado, eles abrem mão da segurança para continuar com suas disputas.

Os poucos que ainda tentam correr no Rio de Janeiro aproveitam brechas na vigilância da cidade e geralmente escapam sem serem percebidos. A exceção foi o atropelador do filho da atriz Cissa Guimarães, o músico Rafael Mascarenhas, de apenas 18, que aproveitava a interdição do Túnel Acústico para andar de skate. Rafael não contava que seu xará, Rafael Bussamra, estaria ali apostando corrida com um amigo, como acusam os colegas da vítima.

– Tragédias como essa acontecem porque, no Rio de Janeiro, diferentemente dos outros estados, as pessoas não têm onde fazer pega legalmente – teoriza o motorista Leandro Magalhães, membro da equipe de manobras Os Intocáveis. – Sou contra quem faz pega na rua, mas isso não aconteceria se as disputas fossem legalizadas e abrigadas num local seguro.

Segundo a assessoria da Polícia Civil, os pegas praticamente sumiram das ruas, mas as denúncias são apuradas.

Durante muito tempo, a pista abandonada do Aeroclube de Nova Iguaçu foi um dos principais redutos de racha. No entanto, o local caiu no desuso quando a fiscalização aumentou. Hoje, o interior do estado é o refúgio dos corredores.

– Donos de grandes sítios fazem os rachas dentro de suas propriedades, o que ainda não é o mais seguro – admite Leandro.

Nos vídeos, facilmente encontrados no Youtube e em sites de relacionamento, é possível ver motoristas fazendo manobras perigosas bem ao lado do público, que não tem proteção alguma. Nas disputas do Aeroclube de Nova Iguaçu, faz parte da diversão dos espectadores atravessar correndo na frente dos veículos.

Adeptos marcam corridas pela internet

Sem os encontros nas ruas, os praticantes de rachas ilegais acharam outra maneira de marcar disputas. Com a sensação de impunidade da internet, muitos usam sites de relacionamento para fazer desafios.

Numa comunidade carioca de pegas, eles relatam suas façanhas e apostam até os próprios carros nas corridas.

– Tenho um Renault Scenic purinho e estou querendo fazer uma corrida de Guadalupe até a entrada de Três Rios, na BR-040 – diz um dos usuários. – Aposto o meu carro.

Em resposta ao desafio, um menor de idade se propõe a correr e diz estar acostumado com os pegas.

– Você perde feio para mim. Tenho 17, mas se quiser é só desafiar que eu estou dentro – provoca. – Tenho um Opala V8 e já ganhei o carro de um otário que correu comigo.

Além das vitórias, os adeptos do pega também compartilham suas derrotas. Um dos frequentadores do Aeroclube de Nova Iguaçu lembra das vezes em que foi preso.

– Já rodei para os policiais várias vezes, mas o pega está no meu sangue.

Pega legalizado no RS tirou a disputa de áreas urbanas

No Rio, a legalização dos pegas foi uma ideia que não pegou. Enquanto estados como Minas Gerais e São Paulo contam com segurança e vários eventos, a única alternativa dos cariocas são os campeonatos de arrancada, promovidos no Autódromo de Jacarepaguá.

– Lá fora, fazem dinheiro, geram emprego e montam grandes eventos – reclama Leandro Magalhães, cuja equipe luta pela legalização dos rachas no estado – Temos um espaço para isso no autódromo. Só precisamos organizar.

O pioneiro na legalização foi o Rio Grande do Sul, cujo point dos fãs do pega é o Autódromo Internacional de Tarumã, na cidade de Viamã. A ideia foi do próprio gerente do autódromo, Márcio Pimentel, que hoje comemora o sucesso do Racha Tarumã.

– Aqui não tem risco de ferir a plateia, também não tem poste ou muro para o motorista bater – argumenta Pimentel. – Eu tinha contato com jovens que faziam pega nas ruas, por isso sentia a necessidade de oferecer um lugar adequado e aumentar a fiscalização nas ruas.

O resultado não poderia ter sido melhor. Além do sucesso, o Racha Tarumã também acabou com os pegas nas ruas.

– Não rua, você praticamente não vê mais. Agora, os praticantes têm a opção de correr aqui – explica o gerente do autódromo. – Só para dar uma dimensão do nosso sucesso, a média de público dos rachas é de 3.500 pessoas. É maior do que a do próprio Campeonato Gaúcho de futebol.

No entanto, os organizadores do evento também lembram que o sucesso no autódromo não é sinônimo de licença para dirigir em alta velocidade nas ruas. Tratam os principais pilotos como ídolos dentro do Racha Tarumã, mas lembram que eles são motoristas como qualquer outro fora dali.

– O pega tem a função social de tirar o perigo das ruas, por isso sempre trabalhamos a conscientização – conta Mirney Antunes, presidente do conselho da Federação Gaúcha de Automobilismo.