Goretti Brandão
Meu pai era simplesmente apaixonado pelo futebol. Flamenguista doente queria ser enterrado com a camisa do Flamengo, e foi. Meus irmãos tiveram nomes dos jogadores que ele admirava. Napoleão Brandão de Souza, amava o futebol, como esporte, de uma maneira global. Sua paixão ultrapassava bandeiras e nacionalidades. Era o futebol-arte que meu pai amava. Amava a arte de ver o jogador dominar a bola, a arte futebolística, a sensibilidade do jogador em ser criativo em armar as jogadas, em fazer o gol como resultado final da sensibilidade em jogar o jogo, propriamente dito.
Ele era um homem rústico, de pouco estudo, que escrevia letras bem desenhadas e falava palavras difíceis. Além do futebol, apreciava a boa música de Catulo da Paixão Cearense, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues. Com ele, os filhos, aprendemos a poética da vida boêmia. Vavá, como era conhecido, havia sido jogador de futebol na juventude. Aprendemos o gooool, que nascia a partir da armação da jogada. Ele o previa antes de todo mundo e se preparava, emocionado, para festejar a bola na trave. Seu grito de gol nascia lá dentro dele. Vinha da festa da alma, do prazer de assistir o jogo sendo jogado.
Estamos fora da Copa. Perdemos. Se estivesse vivo, ouviríamos dele considerações ponderadas pela experiência. Falaria, por certo, dos caminhos que o futebol de agora tem trilhado. Falaria sobre os jogadores, esses novos mitos, os quase deuses, as estrelas, as quais nada falta materialmente, e que funcionam como signos indiciais, com suas imagens, que constroem e consolidam as marcas famosas. São imagens que vendem. Os jogadores se tornaram ícones e emblemas de sonhos inalcançáveis pelo homem comum. São a imagem da má distribuição de renda, com seus salários que envergonham o salário do trabalhador, que sua a camisa todos os dias.
Meu pai continuaria sendo patriótico. Sempre. Universal no esporte, fiel ao Flamengo, à arte futebolística, enfim, mas brasileiro no time pela Copa do Mundo. Brasileiro na cor verde-amarelo. Por certo com o seu discernimento, estranharia a falta de criatividade dos jogadores em campo, reclamaria a ausência de ginga do time, a falta do show de bola, a exemplo do futebol de Pelé, de Garrincha, de Zico, como premissa para os jogadores da Seleção Brasileira atual.
Diria consternado que os tempos são outros. Diria, com toda certeza, o que dizem os mais observadores: que a técnica de jogar futebol, que os interesses mercadológicos que permeiam o futebol, enterrou a arte de jogar futebol.