Pode-se dizer que a enofilia, como a conhecemos hoje, surgiu na França. Mais precisamente nos salões nobres de Luís XIV. Não só isto. Todo o culto ao bom gosto teria sido resultado do esforço pessoal do Rei Sol. Ao menos esta é a tese do livro A Essência do Estilo, de Joan DeJean, recém-lançado pela Civilização Brasileira. Esta professora de francês que já deu aulas em Princeton e Yale defende de maneira bem documentada que Paris e o povo francês teriam aderido a uma febre louca e irreversível, disseminada nos fins do século XVII, na qual o luxo, a qualidade e o glamour se tornaram mais importantes do que a utilidade.

A contaminação começou pela corte, sobreviveu à revolução e ao terror e foi se espalhando por outras camadas sociais. Primeiramente, os burgueses, ávidos de aparentar opulência. Em meados do século XIX, influenciava as hordas de turistas ricos da Inglaterra, Alemanha e Rússia. Depois, transformava Paris em um imenso paraíso de consumo e o turismo, em indústria número um da França. E então conquistava o mundo.

Desde vitrines, vendedoras elegantes, lojas bem decoradas, mudanças cíclicas de moda, tudo contribuía para despertar o desejo, ou melhor, a necessidade de algo que não era realmente necessário. Lembra muito o consumismo moderno, não?

Numa época em que cada vez mais coisas de qualidade tendem a baratear e uniformizar-se, como vencer a guerra na mente do consumidor? Somente através de ilusão, atmosfera, performance. Qual a razão de uma calça jeans custar R$ 100 e outra, praticamente idêntica, dez vezes mais? Grife, propaganda, imagem?

Do mesmo modo, como se justifica um vinho valer R$ 20 e outro, R$ 5 mil? Seria um 250 vezes melhor do que o outro? Não duvido que seja muito melhor, mas como quantificar isso? Para diminuir a discrepância e ser mais preciso: um vinho de R$ 2 mil seria certamente dez vezes melhor do que um de R$ 200? Dificilmente. O vinho mais caro pode e deve ser melhor, mas nem isso é certeza. Mais uma vez estamos tratando de fantasia, sonho, ilusão. As cenouras que o marketing coloca à nossa frente.

Desta constatação vem a eterna busca da boa relação custo-benefício. O Santo Graal do best value, da pechincha. Mas até o best value é relativo à expectativa, à experiência e ao bolso do freguês. E expectativa é a palavra-chave da equação. É em cima dela que se trabalha a fantasia.

Quando eu era mais jovem se usava de maneira positiva a palavra estilo. Dizer "o cara tem estilo" era um baita elogio. Acreditei nisso até o dia em que um guitarrista, num estúdio, contrargumentou que outro guitarrista por mim citado elogiosamente era "apenas um estilista". Ou seja, não era um cara "completo". Isto abalou um pouco minha definição pessoal de estilo.

Aos poucos, uma nova palavra se instalou no nosso cotidiano: atitude. Sim, agora um elogio era "o cara tem atitude". Atitude substituiu o estilo como qualidade desejada. Mas, ora, todo mundo que não está morto tem alguma atitude. Menos um amigo meu, radical, que fundou o Movimento dos Sem-Atitude. Por outro lado, de pouca gente se pode dizer, cada vez menos, que tenha estilo!

A apreciação de vinhos mudou muito através dos séculos. Provavelmente os nobres da corte de Luís XIV usassem termos que permaneceram no idioma do vinho até meados do século XX. Os vinhos eram tratados com adjetivos como nobre, elegante, rico, perfumado, fraco, modesto, etc.

A burguesia e os românticos contribuíram com uma visão mais sensual do vinho. Este passou a ser untuoso, pálido, delicado, robusto, sedoso, voluptuoso, etc. Quase sempre, atributos compatíveis com o corpo de uma mulher. Com a entrada do novo mundo e principalmente dos EUA no jogo, estas expressões mais classistas ou sexistas foram substituídas pelo dialeto sensorial.

Frutado, tostado, frutas vermelhas, floral, apesar da reclamação de muitos, que dizem não perceber "nada disso", são palavras a descrever sensações familiares. Menos metafóricas. Menos poéticas. Talvez isto explique certa uniformização dos vinhos. Aprisionados em estilos. Sem estilo próprio. E a gente culpando o Parker e o Rolland...

Ao degustar os vinhos da Vini Portugal no último dia 17 de junho, pude constatar que muitos deles pretendiam ter atitude. Rótulos espertos, blends da moda, estratégias de marketing interessantes. Mas poucos exibiam aquela qualidade intangível e mesmo meio inexplicável que nos faz pensar: este vinho tem estilo!

Um vinho, entre outros, que fez soar o alarme "estilo" em minha mente foi o Marka Classic Blend 2005 da Durham Agrellos. Esta jovem vinícola do Douro, fundada em 1991, mas com raízes centenárias na produção de vinhos do porto da Sandeman, tem vinhedos no coração da região, entre Peso da Régua e o Pinhão, terrenos de classe "A" na margem direita, voltados para o sul, plantados em socalcos e organizados por castas. Conta ainda com cerca de quatro hectares de vinhas velhas.

O Marka Classic Blend 2005 é, como diz o nome, um clássico corte do Douro: touriga nacional, tinta roriz, touriga franca e tinto cão. Estagiou um ano em barricas novas de carvalho francês e mais um em barricas de segundo uso. É um vinho pronto! Evidencia o cuidado e o conceito do qual foi gerado. No nariz é rico e complexo (o linguajar preconceituoso do aristocrata). Seus taninos são elegantes, macios e equilibrados (olha aí o corpo de mulher). A sensação é a de beber um grande vinho do porto sem o doce e a aguardente deste. Apenas a essência.

É mais difícil e limitador descrever apenas com palavras comparativas (frutas vermelhas, chocolate, tabaco, couro, etc.) os aromas e sabores de um vinho quando ele está num estágio superior. Quando ele tem estilo, enfim, como este vinho. Ou seria apenas uma fantasia minha?

Infelizmente, ainda não é importado no Brasil para tirarmos a dúvida.