Goretti Brandão
As chuvas voltaram a castigar Alagoas no último final de semana. Dias atrás o relato da destruição de casas, as perdas não só financeiras, mas de outros aspectos mais subjetivos, envolvendo as famílias penalizadas, agora, ensaia e já começa a atuar o drama encenado por aqueles que se vêem sem perspectiva, diante das consequências reais, causadas pelos estragos. As grandes tragédias ainda nos remetem, graças a Deus, para a dor alheia e a população sensibilizada se mobiliza buscando agasalho, comida e remédios, através de doações.
É bom ver isso. Assistir pessoas levantando campanhas, utilizando a internet, e outros meios de comunicação, para pedir auxílio aos desvalidos. Essa é a nossa posição: os que, estamos enxutos, sob os telhados de nossas casas, longe do perigo mesmo estando ali tão perto dos desafortunados. Mover campanhas, promover paliativos, comentar a sorte dos desditosos. Essa pobre gente, periférica, apesar de termos a informação e termos visto pela TV, que a destruição em Branquinha, situada às margens do Rio Mundaú, a cerca de 80 quilômetros de Maceió, atingiu também comerciantes, instituições e prédios públicos.
Infelizmente, para a maioria, a moção de apoio dura enquanto durar os apelos dos meios de comunicação. É aquela comoção coletiva, diante dos estardalhaços, das imagens do sofrimento dos semelhantes, que motiva uma porção de gente. É preciso que se alivie a nossa culpa ou se compense de alguma forma, a nossa sorte em não fazermos parte dessa desgraça. Afinal, nossa conduta de modernos civilizados, empurra-nos para a responsabilidade com o outro. Senão a nossa civilidade, o nosso senso religioso de fazer o bem a quem precisa.
No entanto e mesmo assim, todo o esforço é válido, num momento em que idosos, adultos, jovens e crianças, sofrem a falta de um teto, de comida, de vestuário e se encontram perdidos, sem referência na materialidade. É aí que essas pessoas são obrigadas a pensar e a realidade destrói algumas e desestabiliza outras. Para além da casa, da roupa, de ter o que comer os atingidos nada têm ou esperam. Começa então outro drama, o drama psicológico sobre o drama social. A dor do indivíduo, sozinho, mesmo tendo em volta outros co-partícipes da mesma tragédia e que sofrem igualmente. Nessa hora, o nosso sentimento de coletividade sai pela porta dos fundos.
Depois do sobressalto, surge a constatação da vida que está salva, que pairou sobre a correnteza e o furor das águas dos últimos dias, depois, o confrontamento com uma dura realidade e sensação de vazio que a muitos, consta da perda, inclusive, dos próprios documentos de identidade. De fato a vida está salva. O sujeito respira, dorme, chora, acorda, olha para a mulher e os filhos. E a existência? Como tocar pra frente? Eis aí a lacuna. Essa surge logo após os primeiros socorros. Depois de acharmos que cumprimos com o nosso dever e a nossa responsabilidade social, voltamos para as nossas casas, tranqüilos ou quase tranqüilos.
Aí seria o momento de começarmos a atuar em outra frente. Por exemplo, cobrar dos nossos representantes, a atenção responsável pelo social. Olhar a periferia, pobre, sempre atingida, exposta às intempéries, às mazelas, aos exaustivos dramas cotidianos. Cobrar o teto, o direito à saúde, cobrar condições de vida melhor. Nós que movemos campanhas, que saímos de porta em porta atrás de donativos, esquecemos que depois desse primeiro momento, essas pessoas ficarão órfãs. Mergulharão na indigência, muitas passarão a mendigar, sem perspectiva para um recomeço. Por isso é que têm ocorrido tentativas de suicídio, os enfartes, os natimortos das mães desesperadas. Não é bem a realidade que assusta as pessoas, que as levam a tomar atitudes limítrofes, mas a falta de perspectiva de existirem como gente.
Se pudermos olhar o homem sem prescindirmos dessa premissa, veremos que viver sem poder realizar a existência, é uma indignidade.