Goretti Brandão
O dia amanheceu nublado em Pão de Açúcar. À tardinha, as carroças de burro, bem enfeitadas, vão chegando à praça do coreto, no centro da cidade. Há 20 anos, por iniciativa do prefeito Elísio Sávio, ocorreu o primeiro desfile de carroças, e desde então, o evento vai-se tornando tradicional. Hoje tendo outras inovações, mas conservando as mesmas características, a festa traz à avenida principal, figuras das mais diversas. Crianças, jovens, idosos, homossexuais, todos compartilham o espaço coletivo e colocam na pauta do dia, a possibilidade da discussão a partir das alegorias, do que ainda é representativo da cultura popular.
Chama atenção a presença de uma carroça, pela sua caprichosa decoração. Em torno dela, um ainda insipiente, mas determinado grupo de homossexuais, desfilam e dançam com uma alegria jocosa, interpretando de um modo bem próprio sua visão estética sobre a alma junina. A performance é um misto de drag queen ao estilo matuto. Eles atraem o público que espera nas praças, a passagem do desfile. A Turma da Boa, como se intitulam, é composta de pessoas de uma faixa etária que vai dos 18 aos 26 anos. Seus idealizadores gostam de ser chamados pelos nomes artísticos: Bárbara Schineider, Gabriela Matarazzo, Morgana Del Leste e Cocciola Collci. Quase todos profissionais: dois deles trabalham na saúde pública, um na educação e outro é estudante universitário do curso de administração.
Em Pão de Açúcar, os homossexuais sempre fizeram história. Uma história pontuada pela ousadia de abrir espaços, numa sociedade - que nas décadas anteriores -, era marcada, por preconceitos ainda maiores que, sobre eles, era evidente, pelas perseguições cerradas, que iam desde a chacota, ao acinte moral, até a prisão. Ser preso, ser espancado na rua e na delegacia, era fato comum. A repressão policial tinha o apoio da maioria. Mesmo assim, numa cidade pequena como ainda hoje é, tais figuras se mostravam persistentes, ancorados numa coragem que impressionava. Não escondendo a sua opção sexual.
A Turma da Boa, há quatro anos participando do desfile, (que acontece no intervalo entre as comemorações juninas), se ressente dos preconceitos que ainda persistem. Mas ao mesmo tempo em que esses rapazes denunciam a homofobia de grande parte da sociedade, festejam a diversidade sexual. Eles entendem que enquanto se divertem, também promovem um processo comunicativo entre eles e a população da cidade. Por essa razão, instigam o diálogo acerca da diversidade e levam adiante um processo cultural que aos poucos vai desconstruíndo a resistência social, minimizando preconcenitos. A comunidade é chamada a enxergar essa realidade, através desse confronto direto, visual e alegórico.
Questionado sobre essa particularidade, dentro do desfile, Hélio Fialho, (coordenador municipal de turismo e comunicação e presidente da comissão organizadora de eventos de Pão de Açúcar), salientou que todos têm o direito de participar do evento, não importando a opção sexual de cada um. O desfile agora tem conotação diferente, sendo finalizado com um concurso. Uma inovação que por certo estimula uma maior participação dos populares. Há uma comissão julgadora que avalia as carroças, a decoração e as indumentárias dos participantes, a partir de critérios que valorizam a originalidade, sendo este, um dos quesitos mais importantes.