Na última vez que o Chile foi tão bem numa Copa do Mundo, as transmissões de TV ainda eram em preto e branco, não existia cartão vermelho nem amarelo e o melhor jogador em campo era premiado, no máximo, com um radinho a pilha. Foi em 1962, quando o país sediou o Mundial vencido pelo Brasil e terminou em terceiro lugar, logo atrás da Tcheco-Eslováquia, país que nem existe mais. De lá para cá, foram 48 anos sem vencer uma única partida em Mundiais.

Mas a história voltou a sorrir para os chilenos na África do Sul. No jogo de estreia, no dia 16, a Roja despachou Honduras por 1 a 0, repetiu o placar contra a Suíça cinco dias depois e, finalmente, passou para as oitavas de final, mesmo perdendo para a Espanha por 2 a 1 na sexta-feira.

O renascimento da seleção acontece num momento político e social importante para o Chile. O país sofreu em fevereiro com o quinto pior terremoto registrado no mundo - 8,8 graus na escala Richter -, que, seguido de ondas gigantes, deixou quase 500 mortos e fez a economia recuar mais de US$ 30 bilhões do dia para noite.

Centenas de sobreviventes da tragédia ainda vivem em casas provisórias menores que um barraco de favela, esperando uma solução habitacional definitiva. Na costa, onde o estrago foi maior por causa das ondas gigantes, torcedores se reuniram para assistir às partidas em televisores colocados ao ar livre. A precariedade dos abrigos e o outono gelado não impediram que pescadores artesanais improvisassem enfeites em seus vilarejos com bandeirinhas e vuvuzelas.

E os jogadores chilenos se deixaram contaminar pelo clima. Na concentração, em Nelspruit, foi hasteada uma bandeira chilena toda rasgada e suja de barro. O amuleto foi retirado em trapos dos escombros da pequena cidade costeira de Pelluhue, na costa centro-sul do Chile, dias depois do tsunami de fevereiro.

"Sempre passo por aqui depois do treino", disse emocionado o zagueiro chileno Waldo Ponce, mostrando a bandeira hasteada em Nelspruit. "Ela é um símbolo de tudo o que aconteceu no nosso país. É uma motivação a mais."

Parte da magia dessa seleção é creditada ao técnico argentino Rafael "El Loco" Bielsa, que depois da excelente campanha do Chile nas eliminatórias virou herói nacional. Até a ex-presidente Michelle Bachelet, que deixou o governo há três meses com 81% de aprovação, lançou mais que elogios profissionais ao comandante da Roja: "Bielsa é um tipo interessante, que tem esta combinação fatal para as mulheres, entre bonito e misterioso."

Aposta ousada. Sem se deixar levar pelo assédio das fãs, ele trabalhou sério e investiu num time jovem para fazer bonito. Deu espaço para jogadores como Alexis Sánchez, Arturo Vidal e Gary Medel, que se destacaram no Mundial Sub 20 de 2007, realizado no Canadá, onde o Chile conseguiu o segundo lugar, perdendo para a Argentina na final.

"Antes de Bielsa, apostávamos na tática do morcego. Todos ficavam pendurados sob a trave do gol e torciam para que o adversário tivesse má pontaria", disse o jornalista chileno Carlos Monge. "O mérito dele foi de ensinar-nos que podíamos jogar de igual para igual com qualquer um, em qualquer lugar do mundo."

E a saga dos chilenos - que hoje já é quase inacreditável aos olhos de seus próprios torcedores - pode converter-se definitivamente em algo heroico quando o jovem ataque da Roja lançar-se contra a celebrada zaga da seleção brasileira no Ellis Park, em Johannesburgo, no jogo de amanhã, às 15h30 (hora de Brasília).

"Nós sabemos que a seleção do Brasil é candidata ao título, mas nós também temos nosso valor. Só temos de nos preparar bem", disse na sexta-feira o volante Arturo Vidal. Afinal, para quem já chegou tão longe, um passo a mais é o de menos.