Oficiais afegãos disseram nesta quarta-feira (23) que a demissão do general americano Stanley McChrystal, que criticou o presidente Barack Obama em uma entrevista à revista 'Rolling Stone', acabaria com os progressos na guerra e poderia ameaçar a principal operação de segurança atualmente em curso nos territórios de atuação do Talibã, ao sul do Afeganistão.

Ao final de uma hora de videoconferência na noite desta terça-feira com Obama, o presidente afegão, Hamid Karzai, expressou sua confiança no chefe das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país, informou o porta-voz de Karzai.

McChrystal foi convocado a Washington para explicar as declarações dadas à revista contendo críticas diretas a Obama, e a sua equipe de segurança nacional. Ele deve se reunir com o presidente americano ainda nesta quarta.

Enquanto o general era repreendido por seus superiores nos EUA, oficiais afegãos saíram em sua defesa, dizendo que ele aumentou a cooperação entre os afegãos e as tropas internacionais, trabalhou para diminuir as casualidades civis e ganhou a confiança dos afegãos.

"O presidente acredita que estamos em uma ligação muito sensível na parceria, na guerra ao terror e no processo de trazer paz e estabilidade ao Afeganistão, e qualquer buraco neste processo não vai ajudar", disse o porta-voz de Karzai. "Esperamos que não haja mudança na liderança das forças internacionais aqui no Afeganistão e que nós continuemos com a parceria do general McChrystal."
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O caso aparece no mês que está para se tornar um dos mais mortais para as forças estrangeiras na guerra que já dura quase nove anos. O comando militar informou nesta quarta que dois membros do serviço americano morreram nesta terça em ataques a bombas separados no sul do país, aumentando para 69 o número de vítimas das tropas internacionais em junho - 43 deles eram americanos.

O episódio também ocorre no momento em que as forças da Otan e afegãs aumentam a segurança no sul da cidade de Kandahar, o lugar de nascimento do Talibã.

O meio-irmão mais novo de Karzai, Ahmad Wali Karzai, chefe do conselho provincial de Kandahar, deu a McChrystal um toque de apoio, dizendo a repórteres que a liderança do general americano seria sentida com pesar. "Se ele for demitido, irá atrapalhar a operação", disse Ahmad Karzai. "Definitivamente irá afetá-la. Ele começou tudo isso, ele tem uma boa relação com as pessoas. O povo confia nele e nós confiamos nele. Se perdermos essa importante pessoa, não acho que a operação acontecerá de uma forma positiva."

Em Cabul, o porta-voz do ministro da Defesa afegão também falou publicamente em favor do general, que está preparado para colocar seu cargo à disposição, segundo oficiais militares que falaram no anonimato à agência de notícias Associated Press.

Racha
O texto da revista, que cita anonimamente vários assessores de McChyrstal, aponta um racha entre os militares dos EUA e os assessores de Obama, num momento delicado para o Pentágono, que enfrenta críticas à sua estratégia na guerra do Afeganistão.

Segundo a reportagem, membros da equipe de McChrystal fazem piada do vice-presidente Joe Biden, que estaria contra os esforços do general para intensificar o combate à militância islâmica. "Biden? Ou você disse 'bite me' ('me morda')?", diz um assessor na matéria.

Outro assessor chamou o almirante da reserva Jim Jones, assessor de Segurança Nacional de Obama, de "palhaço" que "parou em 1985".

O próprio McChrystal é citado na reportagem como tendo se sentido "traído" pelo vazamento de uma comunicação sigilosa do embaixador dos EUA no Afeganistão, Karl Eikenberry, no ano passado. O telegrama manifestava dúvidas sobre o envio de reforços militares para apoiar um governo afegão sem credibilidade.