A certa altura do documentário "Ao sul da fronteira", o presidente Lula defende as gestões políticas na América Latina dizendo que "finalmente estamos [ele e os outros líderes entrevistados] mudando o patamar de governança da região e que, pela primeira vez, os pobres estão sendo respeitados".
A declaração de Lula sintetiza o tom defendido por Oliver Stone, cineasta de "JFK - A pergunta que não quer calar", "W" e "As torres gêmeas", no documentário - exibido para a imprensa em universidade de São Paulo sem a prometida presença do diretor (que chegou ao país sem visto) na tarde da última segunda-feira e que estreia nos cinemas do país na próxima sexta-feira (4).
"Ao sul da fronteira" retrata o cenário político do continente nos últimos 15 anos e enfoca, principalmente, os governos de Venezuela e Bolívia, com Hugo Chávez e Evo Morales sempre sob o holofote principal, quase como "protagonistas" do registro.
Produzido em 2008, antes da posse de Barack Obama, e lançado em 2009 no Festival de Veneza, o documentário traz Stone à frente das câmeras como um interessado ouvinte de Chávez e Morales, além de escutar o que Lula, Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai) e Raúl Castro (Cuba) têm a dizer.
Eventos como o golpe de estado venezuelano de 2002 e a ascenção de um indígena ao poder boliviano são contados em minúcias. Já Lula faz participação pequena, em que mais endossa o governo de seus colegas do que vê sua trajetória de metalúrgico a chefe de umas das maiores economias do planeta ser narrada.
A tonalidade geral do registro navega ao lado dos líderes ouvidos e, se pode não trazer novidades para quem vivenciou os fatos (ou leu o noticiário internacional) nos últimos anos, promete ser esclarecedora para o norte-americano médio - representado em vários momentos do filme por meio de imagens de arquivo da Fox News.
'Cacauína'
Do canal de notícias de Rupert Murdoch, aliás, Stone faz troça incansável. Em uma delas, talvez a mais insólita documentada, a âncora de um telejornal da rede de TV anuncia de forma enfática a descoberta de que "Chávez masca todas as manhãs um punhado de 'cacau'". Sem pensar muito, seus colegas de bancada já concluem chocados que se trata de “coca” e daí para a histeria ao vivo com um possível consumo de cocaína do "terrível ditador" sul-americano não falta nada.
Vêm daí, do recorte editorial da Fox News, os momentos mais corrosivos de "Ao sul da fronteira".