Getúlio Vargas, Tancredo Neves, Lula. Por eles, vimos populares chorando, gente correndo, gritos de aprovação ou de ódio com a mesma intensidade. O futuro das eleições, porém, promete um pouco menos de emoção. Pelo menos é assim que vê o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília.
"Esta eleição é a primeira em que não temos líderes carismáticos", diz. "Nota-se uma busca da população pelo perfil de um bom administrador". Para ele, Lula é uma exceção de um país em que a figura de homem do povo está declinando.
Para Barreto, a mudança já foi mostrada nas eleições para prefeito, realizadas em 2008. Nesta sexta (21), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) publicou uma pesquisa que mostra que, nos últimos oito anos, diminuiu pela metade o número de prefeitos que não completaram o Ensino Fundamental. Ou seja, bastaram dois pleitos para que os administradores com pouca escolaridade fossem limados.
Não se trata de defender que só quem tem escola, tem credenciais. "Lula é uma prova disso", ressalta Barreto. Mas, para o estudioso, os políticos com menos instrução estão perdendo espaço no gosto do público e também no jogo político.
- A democracia no Brasil é relativamente recente, mas com o passar do tempo a política vai se tornando mais competitiva. E é sempre mais difícil para um sujeito com menos escolaridade se manter nesse meio.
Atualmente, os prefeitos com pouca instrução comandam 6% dos municípios brasileiros. Em 2005, eram 8% e, em 2001, 12%. O dado tem a ver com a melhoria da escolaridade como um todo no Brasil. O número de pessoas com mais de oito anos de estudo subiu 23% somente entre 2001 e 2008. Para Barreto, uma população com mais escolaridade também tende a exigir o mesmo de seus candidatos.
Por tudo isso, a disputa entre Serra e Dilma (os pré-candidatos a presidência mais bem colocados nas pesquisas) promete ser uma "comparação de currículos", pondera. A aura de bons administradores e o perfil de executivo paira sobre os dois.
- Eleição é um processo de seleção. E a população vai aprendendo através de um processo de tentativa e erro. Estamos nesse processo só há 21 anos e amadurecendo nossas preferências. A tendência é a profissionalização da política.