Enquanto o governo do Estado e a Prefeitura do Rio de Janeiro distribuem o Aluguel Social para as vítimas das chuvas de abril deste ano, famílias do morro da Babilônia, no Leme, zona sul do Rio de Janeiro, que tiveram as casas parcial ou totalmente destruídas nos temporais de dezembro de 2009, ainda esperam a documentação necessária dos órgãos oficiais para receberem o benefício. São ao menos 15 famílias nessa situação, o equivalente a cerca de 60 pessoas. Algumas dessas famílias voltaram para as casas, mesmo com paredes caídas ou com terra do deslizamento quase entrando no imóvel, e permanecem em risco.

A situação ficou ainda mais grave com as chuvas do último mês de abril. Vários trechos do morro tiveram escorregamentos de terra. Trilhas e escadas usadas como acesso à residências foram danificadas e até mesmo árvores escorregaram nos barrancos da parte superior do Babilônia. Os moradores reclamam que o poder público não sobe o morro e que os benefícios chegam somente às famílias da parte mais urbanizada da comunidade, que tem uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) desde o ano passado.

Uma das vítimas da chuva de dezembro do ano passado é Jorge Santos de Souza, de 70 anos, que viu metade da sua casa desmoronar, mas, até agora, nem mesmo o laudo da Defesa Civil ele tem em mãos. Dos seis cômodos da casa, só restaram dois. Ele, a mulher, a filha e um neto de três anos saíram às pressas, se alojaram na casa de uma parente e, há pouco tempo, alugaram uma casa de três cômodos.

Souza disse que a precariedade da situação de sua casa era conhecida pela prefeitura desde 1995, que técnicos estiveram no imóvel e recomendaram obras de contenção, mas que isso nunca foi feito. Ele recebeu da Defesa Civil um documento de interdição do imóvel, mas o laudo, que é necessário para dar entrada no Bolsa Aluguel foi emitido duas vezes erroneamente. Souza diz que voltará à prefeitura na próxima semana na tentativa de obter o documento correto.

- Nasci com uma casa, sempre tive casa e agora estou nessa situação.

A filha de Souza, Jacqueline Souza de Britto, de 28 anos, afirma que uma funcionária da prefeitura orientou a família a alugar uma casa, pois logo eles seriam beneficiados. Mas isso não aconteceu. Agora, a família paga R$ 450 de aluguel e Jacqueline e o filho dormem no chão, porque não conseguiram salvar todos os móveis.

- Tiveram muitas promessas, mas só ficou nisso. Falaram para a gente 'entrar' no aluguel, mas ainda está difícil de ganhar o Aluguel Social.
Maria Cristina dos Santos Lopes, de 52 anos, está com a casa cheia de rachaduras - algumas da largura de um dedo. Nenhum técnico da Defesa Civil esteve em sua casa para fazer uma vistoria. Os danos foram causados pelas chuvas de dezembro passado e se agravaram com em abril.

- Quando chove não deixo as crianças tomarem banho sozinhas. Ficamos todos juntos em um cômodo quando começa a chover por causa do medo de desabamento.

A chuva também é motivo de tormento para a família do professor desempregado Isaías Bruno, de 46 anos. Nas chuvas de abril, uma porção de terra que deslizou foi barrada pela parede de sua casa. O imóvel da parte de cima não desmoronou sobre sua casa por um triz. Da Defesa Civil, ele diz que tem somente um protocolo. Isaías Bruno diz que nunca deixou o morro porque, desde 1971, a prefeitura promete que vai remover todas as famílias.

- A minha esperança é que com nosso 'grito', eles [poder público] nos atendam ao menos para calar a nossa boca. Até um cala boca, se for resolver, eu estou querendo.
Grávida de sete meses, Priscila Cristina de Souza Chagas, de 27 anos, tem de entrar em casa por um buraco ou apertando a barriga em um vão da porta da casa. Isso porque um barranco deslizou até a parede do imóvel e bloqueou parte da entrada. Ela e a filha de oito anos dizem não ter para onde ir. Priscila diz que a Defesa Civil lhe deu um papel de interdição, mas não a orientou sobre o que fazer.

- Não aguento mais entrar pelo buraco nem encolher a barriga para passar pela porta.

Outro lado
Por meio de nota a Secretaria Municipal de Habitação disse que recebeu a documentação completa de seis casos de famílias que estavam em área de risco na comunidade Babilônia e que essas casas foram interditadas no final do ano passado em função das chuvas. O órgão disse que essas famílias vão receber o Aluguel Social nesta semana.

A Defesa Civil informou, na noite de sexta-feira, que os técnicos vistos pela reportagem interditaram 26 imóveis naquele dia. Sobre o imóvel de Souza a Defesa Civil informou que a casa foi interditada em dezembro e que o caso foi encaminhado para a Secretaria de Habitação. No entanto, o órgão não informou porque Souza ainda não conseguiu ter o laudo de interdição.