Fundada por iniciativa do Brasil em 2008, a Unasul (União de Nações Sul-americanas) ainda não tem vigência jurídica - seu tratado constitutivo precisa ser aprovado pelo Congresso de oito dos seus 12 países-membros. Também não tem site oficial - o portal está em construção. Até esta terça-feira (4), o grupo ainda precisa de um secretário-geral - mas esse problema deve ser resolvido com a provável escolha do ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner, durante a cúpula na Província de Buenos Aires.
Nesta segunda-feira (3), os ministros das relações exteriores dos países-membros (que se reuniram antes do encontro dos chefes de Estado) aprovaram a indicação do nome de Kirchner. Conhecido pela falta de habilidade diplomática, o ex-presidente parece ter vencido as resistências regionais - mesmo o Uruguai, que se opunha ao argentino pelo caso Botnia, já abriu caminho ao marido da atual líder Cristina Kirchner, após a resolução do conflito na Corte Internacional de Haia.
A cúpula da Unasul (com a presença de oito chefes de Estado) deve ainda discutir uma extensa agenda regional, que inclui desde uma condenação à nova lei migratória no Arizona, o acordo de defesa entre Brasil e EUA, a situação de Honduras, o apoio ao Chile e ao Haiti após os terremotos e um tal diálogo Unasul/EUA, que mesmo diplomatas do Itamaraty tinha dificuldade em explicar do que se trata. Como já quase virou tradição, a reunião deve ser longa.
Bloco ainda está em construção
Para Félix Peña, do Conselho Argentino para as Relações Internacionais (Cari), a Unasul "é um mecanismo que está em plena construção, um espaço útil para desfazer problemas, portanto é preciso tempo".As divisões internas ficaram expostas com o acordo que a Colômbia assinou em 2009 com os Estados Unidos para o uso de bases militares, e que motivou uma cúpula extraordinária em Bariloche (Argentina). Venezuela, Equador e Bolívia foram contra, Brasil e Argentina criticaram, enquanto Chile, Paraguai, Peru e Uruguai expressaram respeito pelo convênio militar.
Os Estados Unidos assinaram semanas atrás um acordo de defesa com o Brasil, que deve explicar o tratado na cúpula. As diferenças também ficaram evidentes durante o golpe de Estado contra o presidente Manuel Zelaya, em Honduras. Colômbia e Peru reconheceram as eleições hondurenhas, enquanto Venezuela e Brasil ficaram contra.
A Unasul analisará ainda a ajuda ao Chile, após o terremoto de fevereiro, assim como ao Haiti.
Unasul conseguiu evitar conflito na Bolívia
A Unasul também conseguiu feitos importantes desde sua fundação. Segundo especialistas consultados, o bloco foi eficaz na crise da Colômbia com a Venezuela e o Equador, em março de 2008, causada por uma operação militar de Bogotá contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em solo equatoriano.
O apoio do bloco ao governo do boliviano Evo Morales também evitou um conflito que poderia virar uma guerra civil no país, após o massacre de 20 camponeses na região de Pando.
O encontro será conduzido pela presidente argentina junto com equatoriano Rafael Correa, antes de um almoço que reunirá os presidentes de Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, do Uruguai, José Mujica, do Paraguai, Fernando Lugo, do Chile, Sebastián Piñera, da Bolívia, Evo Morales, e da Venezuela, Hugo Chávez.
Álvaro Uribe, da Colômbia, e Alan García, do Peru, mandam seus ministros de Relações Exteriores, assim como os governos do Suriname e da Guiana.