Três de maio, enfim, chegou. O novo prazo estabelecido pela Fifa para o início das obras nos estádios do Mundial de 2014 não será cumprido pelas cidades-sede. Mesmo assim, o ministro do Esporte, Orlando Silva, vê avanços nos preparativos. "Há uma evolução menor do que desejaria, mas significativa", disse.

Em entrevista ao Estado, o ministro disse que acredita que a cidade de São Paulo vai receber o jogo de abertura, mas ressaltou a necessidade de um "estádio adequado". Alegou que, apesar da renúncia fiscal de R$ 500 milhões, o evento deve trazer um retorno muito maior ao País: R$ 16 bilhões na arrecadação de tributos, considerando o aumento do consumo e o crescimento do turismo. Elogiou o técnico Dunga e a seleção brasileira, apostando na conquista do hexa.

Em fevereiro, o senhor demonstrou preocupação com as obras dos estádios para a Copa de 2014 e afirmou que o Brasil estava com o "sinal amarelo ligado". Com quase todas as cidades-sede tendo dificuldades para cumprir o novo prazo para o início dos trabalhos (3 de maio), a preocupação aumentou?

Não, eu diria que a preocupação é permanente. A realização do Mundial no Brasil é uma oportunidade para promover o País, melhorar a infraestrutura e serviços, gerar empregos. Há uma evolução menor do que desejaria, mas significativa. Algumas sedes fecharam licitação para contratar a empresa responsável pelas obras, já chegaram quatro cartas-consulta ao BNDES, a evolução está acontecendo em um ritmo possível. Muitos estádios, ainda que a Fifa esteja examinado o projeto e o BNDES não tenha definido o financiamento, estão executando obras.

O panorama não parece favorável. O Morumbi corre o risco de ser excluído (o "Estado" apurou que ele será excluído). O contrato de licitação do Mané Garrincha foi suspenso pelo Tribunal de Contas do DF, que encontrou irregularidades no projeto. A arena de Natal só deve ser erguida no segundo semestre. O senhor mesmo já comentou a possibilidade de exclusão de cidades-sede, mas depois voltou atrás por meio de nota.

Um parlamentar me perguntou se há plano B, em função de não cumprimento de cronograma. A minha resposta foi não. Não há plano B. A minha expectativa é de que a Copa seja realizada em 12 cidades, porque o presidente Lula acredita que assim ajudará a nacionalizar o projeto, mas temos de cumprir compromissos e responsabilidades.

Apesar do prazo da Fifa, a maioria dos estádios não iniciou as obras.

Essa pergunta você deve fazer à Fifa. No que diz respeito a estádio, o governo federal tem papel limitado. O máximo que podemos fazer é viabilizar uma linha de financiamento para reforma e construção. Fizemos isso junto ao BNDES.

E o risco de exclusão das cidades?

É assunto da Fifa também. Quem decidiu que seriam 12 cidades foi ela.

Na opinião do senhor, o Morumbi possui condições de abrir o Mundial?

Esse é um debate técnico. O padrão Fifa de estádio envolve segurança, conforto, visibilidade para os torcedores, um conjunto de critérios característicos de um evento como a Copa do Mundo. É impensável uma Copa sem São Paulo. São Paulo é o maior destino dos voos internacionais, tem a maior rede hoteleira, melhor infraestrutura, melhores serviços do Brasil. Se não é razoável pensar em Copa sem São Paulo, e se o Morumbi é o estádio indicado pelas instituições responsáveis, o certo é viabilizar o Morumbi. Agora, o Morumbi tem de cumprir os critérios.

Neste ano, devem ser aprovadas pelo Congresso as propostas de isenção fiscal para a realização da Copa no Brasil. Todos os fornecedores de serviços, máquinas, veículos, materiais de imagem e outros necessários para a promoção terão isenção total de impostos federais. Quanto o governo vai perder com isso?

As isenções projetam renúncia fiscal de R$ 500 milhões, mas a arrecadação potencial de tributos pode ter como consequência geração de R$ 16 bilhões. O governo não perde nada, e o País ganha muito.

Nos bastidores, já houve quem dissesse que se a África do Sul vai sediar um evento desses, o Brasil também consegue. O País não deveria se espelhar em uma Copa mais organizada, como a da Alemanha?

A Copa do Mundo de 2014 vai ser brasileira. Não temos inspiração em África do Sul nem em Alemanha, porque o Brasil não é África do Sul nem Alemanha, temos características próprias. Devemos nos inspirar nas melhores práticas. São realidades distintas, mas há boas lições da Alemanha, como a preocupação com a sustentabilidade ambiental.

O senhor vê riscos para o cronograma, em caso de vitória da oposição?

O projeto da Copa é um projeto do País. Em Zurique, quando o Brasil foi anunciado como sede, estavam presentes 13 governadores, inclusive o pré-candidato da oposição, José Serra. Havia governadores de todos os partidos, o que deixou claro para a Fifa que o projeto não é do presidente Lula, é do Brasil.

O senhor aposta na seleção?

Sim, o Dunga tem uma liderança forte e o grupo está muito coeso.

O Neymar devia ser convocado?

Esse é um problema do Dunga.

Uma das principais apostas do governo durante a sua gestão foi a Timemania, mas, em dois anos, as dívidas dos principais clubes subiram de R$ 2,57 bilhões para R$ 3,24 bilhões.

A Timemania cumpriu parcialmente o seu objetivo, que era não só gerar receita de loteria, mas consolidar dívidas dos clubes e regularizar a situação deles. Para muitos, conseguimos organizar a situação fiscal, o governo resgatou parte da dívida. Isso foi uma conquista.