Na semana em que o novo código de ética médica entrou em vigor, repórteres do Fantástico percorreram hospitais em sete estados do Brasil. A ausência de médicos no plantão passou a ser considerada falta grave tanto para os médicos quanto para os responsáveis técnicos, os gestores do hospital, que não providenciam substitutos.

As equipes de reportagem passaram por 33 hospitais espalhados pelo país. De cada três, um não tinha o quadro completo no plantão. A reportagem encontrou muitos pacientes esgotados pela peregrinação em busca de atendimento.

Na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, em quatro dos sete hospitais visitados o quadro do plantão não estava completo. “Aqui só clínico. Ortopedista só de sobreaviso, atende só chamada", diz uma funcionária.

O diretor de um dos hospitais reconhece a falta de médicos, mas considera boas as exigências do novo código de ética médica.

“Na medida em que houver uma cobrança real, como se está vislumbrando, a gente vai começar a separar o bom do mau profissional. Eu posso ser punido, mas com certeza esse mau profissional também será punido”, diz Marcos Oliveira, diretor do hospital Nossa Senhora de Nazareth, em Saquarema (RJ).

Em Brasilândia, interior de Minas Gerais, uma senhora reclama que o pai, internado, recebeu prescrição de medicamento por telefone, o que é proibido no novo código: “Sem examinar. Um erro de diagnóstico assim é 90% de chance de acontecer”.

Não havia nenhum médico de plantão naquele dia. O secretário de Saúde da cidade, Odilon Martins, culpa o acaso.

“Eu tinha contratado outro médico e ele me ligou hoje pela manhã dizendo que o pai dele estava internado na UTI e que não pode vir. Por esse transtorno aconteceu aqui hoje. Aconteceu hoje do outro médico já ter outro compromisso e ele ter que se ausentar, por algum momento, que ele tem o problema dele particular também e ele por essa razão talvez não esteja aqui ainda”.

No bairro mais populoso de Teresina, a reportagem também não encontrou nenhum médico no hospital. “Estou indo embora porque não tem pediatra”, diz uma paciente.

“É inaceitável um médico faltar ao plantão por irresponsabilidade. Os maus médicos, nós vamos investigar e vamos punir. Mas não é a grande maioria. A grande maioria está trabalhando, está salvando vidas, está fazendo seu trabalho e está dignificando a profissão. Agora, tem que olhar bem. Muitas vezes, é uma questão administrativa. Os gestores não estão pagando ou estão contratando cooperativas terceirizadas, estão demitindo, os médicos estão pedindo demissão porque não suportam mais ficar trabalhando em condições inadequadas”, diz o presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto D'Ávila.

Em alguns casos, apesar de haver médicos, o atendimento demora. “Nós estamos aqui desde 19h. A moça falou que eles vão ser atendidos amanhã bem cedo. Amanhã de manhã”, diz uma paciente que esperava na madrugada num hospital de Porto Alegre.

O hospital confirma: “Tem muita gente internada nos corredores, demora o atendimento. É por falta de espaço físico”, diz uma funcionária.