Uma semana após o Papa Bento XVI enviar uma carta aos irlandeses criticando como os religiosos lidaram com os casos de pedofilia de sacerdotes, cardeais de vários países admitiram erros da Igreja, numa tentativa de reconciliação com fiéis. Na quarta-feira, em Suíça, Dinamarca, Áustria e Irlanda, religiosos tentaram dar uma resposta sobre os casos de abusos que atingem o clero e alguns chegaram a estimular a denúncia dos agressores.
O arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, publicou um artigo no jornal "L'Osservatore Romano" afirmando que a Igreja não nega as denúncias de pedofilia e que "se arrepende pelos males causados aos outros e a si mesma". Dom Odilo afirma que a Igreja não encobriu os crimes e pediu que os fiéis separem o "joio do trigo": "Criminalizar toda a Igreja não é justo, uma vez que os crimes foram cometidos por somente alguns e não por todos."
Cardeal irlandês recebe vítimas em sua casa
Num pronunciamento em todas as TVs católicas na noite de quarta-feira, em cadeia nacional, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Mariana (MG), dom Geraldo Lyrio Rocha, manifestou apoio ao Papa e lamentou que "a divulgação de notícias relativas a estes crimes, injustificáveis, se transformem em uma campanha difamatória contra a Igreja e contra o Papa".
- O Papa, ao reconhecer publicamente os erros de membros da Igreja e ao pedir perdão por esta prática, não merecia este tratamento que fere também grande parte do povo brasileiro, que sofre esses momentos difíceis - declarou Dom Geraldo.
O sinal mais claro de reconciliação com os fiéis partiu do cardeal irlandês Sean Brady, que recebeu na quarta-feira vítimas em sua casa, em Armagh. Ele ouviu o relato das pessoas que foram estupradas ou maltratadas quando eram crianças por padres e prometeu apoiar a investigação que atinge 26 dioceses do país.
Na Áustria, o cardeal Christoph Schoenborn, considerado uma pessoa próxima ao Papa, reconheceu que padres tiraram vantagem e destruíram a confiança das crianças na Igreja. Numa missa na Catedral de São Estevão em homenagem às vítimas, ele agradeceu às pessoas por romperem o silêncio e disse que ainda há muito a ser feito.
As ações em Áustria e Irlanda não foram isoladas, e na Suíça os bispos pediram que as vítimas denunciem os religiosos. O país que fornece os guardas que protegem o Papa estuda criar um registro nacional com o nome dos padres pedófilos. A medida é apoiada pelo governo, mas divide os religiosos. Na Dinamarca, os bispos anunciaram que vão investigar casos ocorridos há décadas.
- Trata-se de se melhorar as coisas - disse o porta-voz da Conferência Suíça dos Bispos, Walter Mueller.
Segundo denúncias, Bento XVI teria deixado de punir um sacerdote acusado de molestar 200 crianças surdas nos EUA e sabia que um padre pedófilo alemão retomara as atividades pastorais na Arquidiocese de Munique e Freising, na época comandada por ele. Ambas as acusações foram negadas pela Santa Sé. Na quarta-feira, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o Papa via o episódio como um teste para si e para a Igreja.