As maiores autoridades do Vaticano, incluindo Joseph Ratzinger, que anos mais tarde se tornaria o papa Bento XVI, encobriram um sacerdote norte-americano que teria abusado sexualmente de aproximadamente 200 menores surdos, segundo documentos da igreja obtidos e revelados pelo jornal "The New York Times".
A correspondência interna de bispos do estado americano de Wisconsin diretamente ao cardeal Ratzinger, o futuro papa, mostra que, enquanto os responsáveis eclesiásticos discutiram a expulsão do padre, a prioridade maior foi proteger a Igreja do escândalo, segundo o site do jornal.
Os documentos procedem da causa judicial aberta contra o reverendo Lawrence C. Murphy, que trabalhou durante mais de 20 anos, entre 1950 e 1974, em uma escola para crianças surdas de Wisconsin.Outro lado
O Vaticano explicou nesta quinta que o reverendo Murphy,não foi castigado por que o caso só foi descoberto depois de 20 anos, quando ele já estava muito doente.
O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, reconhece o "terrível sofrimento das vítimas" e assegura que Murphy "violou a lei e, o que é mais importante, a confiança que suas vítimas tinham nele".
Segundo Lombardi, "a Congregação para a Doutrina da Fé não foi informada do assunto até cerca de 20 anos mais tarde. No final dos anos 1990, depois de mais de duas décadas, a Congregação foi questionada sobre como tratar o caso Murphy dentro da igreja".
O porta-voz vaticano destaca que "a pergunta que foi apresentada à Congregação não tinha relação com procedimento civil algum ou com processos judiciais contra o padre Murphy".
"Em tais casos - acrescenta Lombardi - o Código de Direito canônico não prevê penas automáticas, mas recomenda que seja feito um julgamento considerando a maior pena eclesiástica, que é a expulsão do estado clerical".
Por isso, acrescenta Lombardi, "visto que o padre Murphy era idoso, sua saúde era precária, vivia em isolamento e não havia novas acusações nos últimos 20 anos, a Congregação para a Doutrina da Fé tomou em consideração a restrição e pediu que aceitasse a responsabilidade por seus graves atos".
O Vaticano ressalta ainda que Murphy morreu aproximadamente quatro meses mais tarde.
No texto, o porta-voz também deixa claro que nem no documento vaticano "Crimen Sollicitationis", escrito em 1962, e que traz instruções aos bispos sobre como enfrentar as acusações de abuso de menores, nem no Código de Direito é "proibido denunciar os delitos de abusos a menores às autoridades judiciais".