Um mês após o terremoto que colocou no chão mais da metade dos prédios de sua capital, espalhou milhares de corpos pelas ruas e matou mais de 270 mil pessoas, o Haiti começa lentamente a se reerguer. As marcas da tragédia de 12 de janeiro estão em todas as partes, e muitos haitianos ainda não sabem o que fazer para reconstruir suas vidas. Mas também já é possível ouvir um pouco de música em meio aos escombros. E o engarrafamento nas ruas de Porto Príncipe mostra que o país ainda está vivo, apesar de tudo.

O espanhol Marçal Izard descreve esse cenário, em que a vida começa a florescer depois da tragédia. Ele trabalha na Federação Internacional da Cruz Vermelha e já havia estado várias vezes no país. Voltou depois da tragédia, que expôs a imensa carência do país mais pobre das Américas:

- Os haitianos já estão acostumados aos desastres. O país sofre com furacões, inundações, teve uma guerra civil recentemente. Mesmo assim, é surpreendente a forma como eles reagiram e mostram que são capazes de sobreviver. Ainda que as marcas do desastre estejam por toda a parte, o comércio começa a voltar às ruas, já se ouve música, as pessoas vão à igreja, há engarrafamento. A vida pouco a pouco começa a voltar.

O tremor de sete graus na escala Richter - o mais forte em 200 anos a atingir a região - colocou o foco das atenções do mundo inteiro no Haiti. Milhares de voluntários, ONGs, governos e organismos de todo o mundo se mobilizaram para a ajuda, que chegou rápido, mas de maneira pouco coordenada. Os Estados Unidos enviaram 15 mil soldados, num esforço de emergência para ajudar o país caribenho. Os americanos, no entanto, demoraram a se entender com os militares do Brasil, que desde 2004 lidera uma missão de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) por lá.

Nos primeiros dias, ninguém sabia quem faria o quê, e a ajuda que desembarcava no aeroporto demorava a chegar às mãos da população. Enquanto isso, os cerca de 9 milhões de haitianos viam seu governo, que já era considerado fraco demais para governar o país antes do terremoto, mudar-se para uma delegacia.

Matar a sede e a fome são as prioridades

O trabalho para reerguer o país será imenso. Para o presidente, René Preval, a reconstrução levará pelo menos dez anos. Para Izard, da Federação Internacional da Cruz Vermelha, a maior urgência agora é matar a sede das pessoas. A entidade tenta ajudar a normalizar o já precário sistema de distribuição de água na capital, Porto Príncipe. Segundo Izard, o trabalho da ONG já levou água para 16 mil pessoas depois do terremoApesar dos 600 mil desabrigados pelo terremoto, dos 500 mil refugiados de Porto Príncipe e da falta de comida e de itens básicos, o Haiti não vive um clima de insegurança maior do que o de antes da tragédia, segundo Izard:

- Não se nota um alto grau de insegurança. Parece que as gangues estão menos visíveis agora.

A opinião é a mesma do porta-voz das tropas brasileiras no Haiti, coronel Silva Filho:

- Não temos indicativos de que a insegurança tenha aumentado com força, talvez porque a população está traumatizada, carente, e o país está se recuperando.

A função da missão de paz da ONU (Minustah), comandada pelo Brasil, é justamente manter a segurança no país. Logo depois do terremoto, militares brasileiros chegaram a relatar o furto de armas de dentro de um quartel brasileiro, que desabou. Nos primeiros dias após o tremor, os soldados chegaram a atuar na ajuda humanitária, mas a função foi assumida pelos Estados Unidos. Houve relatos de que a maneira com que os americanos chegaram ao país, tomando o controle do aeroporto e coordenando todos os trabalhos de ajuda humanitária, incomodou o pessoal da Minustah, o que o coronel nega:

- Não houve desconforto com os americanos. Trabalhamos juntos na distribuição dos alimentos. E há muito contato entre o comando dos Estados Unidos e o da Minustah.

Desafios ainda são imensos

O porta-voz das forças brasileiras chegou ao país dias depois do terremoto. Ele se mostra otimista, mas ressalta que muita coisa ainda precisa ser feita:

- Vendo as fotos e a destruição da cidade depois do terremoto, chama muito a atenção como as coisas já estão diferentes. Falta muita coisa a ser feita, mas as coisas vão se normalizando aos poucos.

Izard, da Cruz Vermelha, descreve:

- Em Porto Príncipe, praticamente todo mundo já tem acesso à água potável, que ainda é pouca, mas suficiente para beber e cozinhar. O Programa de Alimentação da ONU também está alimentando um milhão de pessoas por dia.

Para ele, o problema maior agora é o saneamento, o acesso a banheiros e banhos. E tem também o desafio de proteger os desabrigados das chuvas que estão por vir:

- Agora estamos empenhados em construir mais abrigos de emergência, porque a temporada de chuvas está chegando.to.

A Federação da Cruz Vermelha já trabalhava no país antes da tragédia, atendendo a população carcerária. Mas não há muito mais o que fazer, uma vez que mais de 5.000 detentos fugiram das prisões da capital.