O rosto de dona Ione Costa parecia tão desolado como no momento em que foi resgatada pela Promotoria do Cidadão, no bairro do Varjão, antigo Rangel, em 20 de novembro de 2009. A vizinhança acionou o Ministério Público (MP), denunciando o filho, que recebia o dinheiro da aposentadoria dela, sem lhe repassar nenhuma quantia, e nem sequer comida ou remédio. Ione recebeu atendimento psicológico e médico e foi encaminhada para a casa de repouso Vila Vicentina Júlia Freire, na Torre, na capital. A firmeza dos pés e braços contrastam com a voz reticente, mas demonstram que a força ali era de gente que havia trabalhado por anos a fio para garantir o sustento dos filhos e o próprio. Resguardar-se a um asilo, por melhores condições ali oferecidas, não parece ser o ideal de vida.

Aos poucos, sentada na cadeira de balanço no sol das dez, ela foi se abrindo. "Aumentaram muito a situação. Botaram uns panos no chão, para tirar fotos", lembra, sobre o resgate após a denúncia. "Tavatodo mundo com uma raiva muito grande do meu filho. Ele tirou um empréstimo sem eu saber." A aposentada conta que optou por mudar-se para a vila quando percebeu que a família do filho não estava satisfeita com sua presença na casa. "Eu falei \'Eu vou m\'embora daqui\', e peguei meus malotes. Fui alugar uma casa porque eu sou muito conhecida no Varjão. Ele (o filho) me deu a entrada. E só.", contou. "Os vizinhos que cuidavam de mim." Deixada pelo filho, sem o dinheiro da aposentadoria e meios de viver com as condições básicas, apenas apoiada pela vizinhança.

Como ela, muitos outros casos sobre abandono e negligência de idosos foram denunciados ao MP. Nesse ano, em pouco mais de 20 dias, foram realizadas 35 denúncias de maus tratos contra idosos, e três resgates foram feitos pela Promotoria do Cidadão. Em 2009, 328 foi o número de denúncias, e 21, o de resgates. O número nos faz perguntar o porquê do descaso contra os idosos. Por que maltratamos nossos idosos?

Para a doutora em antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mônica Franch, o problema não necessariamente é uma situação de descuido ou desumanidade para com o idoso, mas está nas mudanças sociais na questão da família. "A solução atual para essa situação, que deixa o cuidado dos idosos na mão de sua família, tem inúmeros limites, redundando por vezes em situações de abandono. Mesmo com todos os avanços em termos de políticas sociais, a situação financeira da maioria das famílias brasileiras é precária e isso provoca tensões na hora da convivência. Além disso, o próprio perfil das famílias vem se transformando. Aumentaram os divórcios e as famílias recompostas, de modo que não necessariamente os filhos se sentem obrigados com seus pais - ou com ambos os pais. Existe hoje mais mobilidade também, e não é raro que os filhos morem em cidades distantes, o que dificulta dar suporte aos pais na velhice."