A professora e pesquisadora Jaqueline Sales por pouco não conseguiu assistir à peça Carícias, do diretor Leo Falcão, na última quinta-feira (21) no Teatro Hermilo Borba Filho, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos. Acompanhada de sua filha de cinco anos, foi convidada a se retirar por conta da classificação indicativa do espetáculo, que era de 12 anos. A coordenadora-geral do festival, Carla Valença, anunciou aos espectadores o motivo dos quase 20 minutos de atraso. “Só começaremos quando elas se retirarem”. Após consultar uma amiga advogada, Jaqueline decidiu ficar. Na quinta-feira da semana passada, ela foi expulsa do espetáculo Teresa e o aquário, da companhia gaúcha Espaço em Branco, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro).

O episódio causou desconforto na organização do festival e transformou Jaqueline na pedra do sapato de Carla Valença. Na última quinta-feira, Carla conversou com a professora e devolveu o dinheiro da entrada. “Ela me disse que se o juizado de menores aparecesse, iria causar problemas ao teatro e ao festival”, afirma Jaqueline.

A produção informou que a peça Teresa e o aquário tinha classificação indicativa de 16 anos e diversas cenas de nu e violência. As abordagens começaram educadamente, com uma das pessoas de apoio da produção, Dandara Pagu, afirmando que não seria permitido a entrada de crianças. Em seguida, convidada a conversar com a coordenação, Jaqueline recebeu de volta o dinheiro e não foi mais permitido seu acesso ao teatro. “Me disseram que temiam pelo que os expectadores e a imprensa podiam dizer se soubessem que o teatro permitiu a entrada de uma criança”, afirmou a mãe.

Uma semana depois, desta vez no Hermilo Borba Filho, o episódio se repetiu, com os mesmos personagens. Mas o enredo tomou outro rumo quando a professora decidiu permanecer sentada no apertado salão que é o teatro. A assistente de direção Karina Falcão tentou uma solução amigável. “Cheguei a assinar um termo feito às pressas, onde eu me responsabilizava pela minha filha. O que é ridículo, porque já sou legalmente responsável por ela”, disse Jaqueline. “Até um dos espectadores tentou me fazer sair, dizendo que não era certo estar ali. Foi constrangedor”, lembra.

A outra protagonista dessa polêmica, Carla Valença, diz que foi uma decisão conjunta do festival. “A classificação existe para isso. Temos espetáculos infantis, mas não permitimos entrada de crianças em peças para maiores”, afirmou. Também acredita estar fazendo um julgamento correto, baseado no bom senso. “É um absurdo alguém permitir que a filha seja exposta a isso. Além do mais, a presença da criança estava causando constrangimento na plateia, já que o espetáculo tem mulheres e homens nus”, defende-se Valença.

A lei permite que pais ou responsáveis assistam a espetáculos culturais, peças e filmes com jovens menores de idade, desde que a classificação não seja de 18 anos. A informação está registrada inclusive numa cartela divulgada no site do Ministério da Justiça, explicando os pormenores da lei. O órgão não classifica espetáculos ao vivo, como peças teatrais, mas exige que os produtores indiquem a classificação etária.

“A classificação é um conjunto de informações dirigidas às famílias para que decidam sobre o acesso de seus filhos ao conteúdo que pretendem assistir”, diz o documento. Existe um projeto de lei, já aprovado em primeira instância na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal, que flexibiliza ainda mais a classificação, o que permitiria que o adolescente entre 16 e 18 anos veja filme ou peça para maiores de 18, acompanhado dos pais ou responsáveis.

“A polêmica vai além da lei e esbarra nos ditames morais”, acredita a professora Jaqueline. Ela comprou, de uma só vez, dez entradas para o Janeiro de Grandes Espetáculos. “Não vi nada que comprometesse a formação de minha filha. Não vejo problema algum ela ser exposta a nudez de um corpo masculino ou feminino”, disse. Na peça Carícias, uma das pessoas que a abordaram se apressou em alertá-la para os beijos gays mostrados em cena. “Existe preconceito nessas restrições impostas a mim. Não acho nada bizarro em uma criança ficar ciente que relacionamentos homossexuais existem”. Do outro lado, polariza-se a polêmica: “É irresponsável. Digo isso como pessoa, não como coordenadora”, completa Carla Valença.