Corinthians, está enganado: ele quer muito mais. Em entrevista exclusiva na quinta-feira, no campo de treinamento usado pelo clube em Itu, o jogador de 36 anos disse que quer ganhar a Libertadores e outros títulos, jogar mais três ou quatro anos e chegar aos 40 atuando pelo Corinthians. E também quer voltar à seleção, da qual diz que saiu por pressão de imprensa e na qual não vê lateral-esquerdo com seu perfil. Aproveitou e defendeu seu desempenho na Turquia, criticando o Fenerbahçe por atraso de salário, comentou os problemas do Real Madrid dos galácticos e disse que o novo time do Corinthians já está se entrosando. Para ele, a volta de jogadores de renome mostra que o futebol brasileiro está aprendendo a se organizar com empresas e marketing.

Você e Ronaldo pertencem a uma geração que, em comparação com a dos anos 80, foi mais bem-sucedida no futebol europeu. Ficaram cerca de 14 anos fora e ganharam muitos títulos coletivos e individuais. E aí de repente vocês voltam ao Brasil para encerrar a carreira. O futebol brasileiro vai ser sempre feito de jovens revelações e veteranos consagrados?

Acho que não. O futebol brasileiro não é mal organizado. Eu não encerrei a carreira no Real Madrid por quê? Porque não cheguei a um acordo sobre os anos de contrato. Não terminei meu contrato no Fenerbahçe por quê? Porque o clube não era tão bem organizado quanto pensei. Não paga em dia, não tem estrutura de treinamento, não tem história a não ser na própria Turquia. Não pode continuar enganando o mundo.

O que falta nos clubes brasileiros?

O que hoje o Corinthians tem: empresas que patrocinem, que queiram participar, empresas importantes.

Você acha que sua volta e a do Ronaldo podem simbolizar essa mudança?

Não só a nossa. A do Fred para o Fluminense, a de outros grandes jogadores. Isso faz com que grandes empresas invistam nos clubes. Mas o Corinthians hoje é referência porque tem muitas empresas patrocinando. Sabe usar o nome do clube, sabe trazer o jogador e sabe explorar a imagem do jogador.

Ronaldo tem participação em anúncios na camisa. Você não vai ter isso, mas vai ter no licenciamento das marcas, é isso?

Todo o licenciamento é meu.

Você acha que daqui a um tempo o futebol brasileiro vai conseguir reter mais craques, disputar melhor com os clubes estrangeiros?

Exato. Jogadores brasileiros têm imagem no mundo todo, que pode ser explorada. E aí não precisa tanto ir para fora. Não é igual à nossa época. A gente cavava nosso espaço para ir para fora ganhar dinheiro. Antes, sinceramente, eu nem pensava em voltar para o Brasil. Agora tive a felicidade de voltar para um time grande. E pelo que eu estava jogando no Fenerbahçe. Ao contrário do que dizem alguns, eu estava muito bem lá. Fui o jogador que mais esteve em campo nos últimos dois anos. Fiz 110 jogos pelo Fenerbahçe, sempre em nível alto.

E quando você se decepcionou com o Fenerbahçe você pensou em voltar ao Brasil. Para qual time pensou primeiro?

Pensei em Brasil. Tinha possibilidade de Santos, Palmeiras, mas o Corinthians estava praticamente fechado.

Você balançou em relação ao Santos.

É, mas foi coisa minha, mais pessoal, sonho de infância. O Corinthians me ofereceu um projeto. Mostrou o que o Ronaldo tem e me ofereceu um também, relacionando a imagem do clube e a minha. E é o ano do centenário. Foi muita coincidência, tudo. Não vim aqui para ganhar apenas a Libertadores; vim para ganhar tudo que possa ganhar com o Corinthians nesses três anos. Minha meta é jogar mais três, quatro anos, chegar até os 40 anos jogando.

O Corinthians investiu muito para este ano. A conta não pode ficar pesada lá na frente?

O Corinthians nos próximos 10 ou 12 anos é um clube estruturado. A parte financeira não vai afetar em nada. Ouvi o Neto dizendo que se a gente não ganhar a Libertadores a dívida vai de R$ 100 milhões para R$ 500 milhões. Ele não sabe o que está acontecendo. A gente sabe. O Corinthians é um clube que vende muito, tem dinheiro de televisão, tem um marketing. A referência das pessoas talvez seja a história da MSI, que entrou e depois deixou a situação ruim, e houve aquele episódio em que a torcida quis invadir o campo quando o time de Tévez, Nilmar e outros perdeu na Libertadores. Mas as pessoas que estão controlando o clube hoje são muito bem capacitadas. Não que a anterior não fosse. Mas hoje o clube é muito bem estruturado. Montou um grande time para ganhar muitos títulos nos próximos três ou quatro anos. Se um Ronaldo for embora daqui a dois anos, por exemplo, outro craque vai chegar.

Você acredita nessa história de que o Corinthians não ganha a Libertadores porque é um time muito caseiro, local?

Não tem nada a ver. Tudo depende do planejamento. O jogador brasileiro ganha pelo que joga. Também diziam que a seleção não ganhava Copa América. Fomos lá em 95, ganhamos; fomos lá em 97, também. O negócio é jogar mais bola que o adversário. Não tem essa de catimba. Futebol hoje é velocidade, experiência. Brasileiro quer se divertir com responsabilidade. Os números estão aí para demonstrar a superioridade do futebol brasileiro.

Mas ganhar a Libertadores teria um gosto especial, não? Você tem três Champions, mas não Libertadores.

Seria muito, muito bom. E também faz muito tempo que não ganho o Paulista, o Brasileiro... Há 14 anos! (risos)

O Corinthians se preocupou em ter dois bons jogadores para cada posição. Tcheco e Danilo, Defederico e Dentinho, Ronaldo e Yarlei, etc... É por aí?

A defesa está bem também. Temos o Chicão e o William, mas também o Paulo André, que é muito bom jogador, e agora chegou o Leandro, do Barueri. Com a espinha dorsal que tem o time - goleiro, zagueiro, meio-campo e atacante -, ficamos fortes.

E o entrosamento? Danilo joga pela esquerda, Tcheco também, Defederico é canhoto, você... O próprio Ronaldo gosta de cair pela esquerda...

Pelo que vemos aqui nos treinamentos coletivos, de posse de bola, já estamos adaptados, tocando sem ver. E a gente já conhece os jogadores, sabe os movimentos que vão fazer. Quando cheguei, estava preocupado com isso. Mas o ambiente está tão bom, e os treinamentos estão nos dando tanta confiança, que vai ser muito gostoso jogar.

Você acompanhou o Corinthians no ano passado?

Acompanhei tudo. Desde a estreia do Ronaldo até o final. Se forçasse um pouco mais, o Corinthians teria sido campeão do Brasileiro também.

Houve a venda no meio do ano: André Santos, Christian, Douglas.

Mas hoje, se vender, tem peça de reposição.

No Fenerbahçe você estava jogando mais atrás, sem avançar muito, e o André mais à frente.

Ele tem cacoete de meio-campo. Eu sou lateral. Mas gosto de apoiar muito, de ir até a linha de fundo. Eu alternava com ele, mas ele jogou mais à frente e isso até complicou a situação dele com a seleção brasileira. O jeito como o Cafu e eu jogávamos era diferente. A gente marcava e atacava. Hoje só o Maicon faz isso. O Daniel Alves também tem jogado mais como meia. O Marcelo, no Real Madrid, também não é lateral.

Com quem você se vê atuando ali pela esquerda? O Danilo cai muito por ali.

Aqui já treinei com o Danilo, com o Jorge Henrique e com o Dentinho. Com os três funcionou muito bem.

O Ronaldo não deve aguentar 50 jogos por ano. E você?

Eu sou fominha. Quero jogar todos, desde que não prejudique o time.

Existe o "risco galácticos"? Principalmente quando o Beckham chegou, em 2004, o Real Madrid que tinha você, Ronaldo, Zidane e Figo decepcionou. Por quê?

Não ponho a culpa na imprensa, mas essa história de chamar de "galácticos" atrapalhou muito. E o clube começou a querer fazer excursões, cobrando caro por jogos amistosos, o que é normal, para recuperar os gastos. Os adversários entravam em campo como se fossem disputar final de Copa do Mundo. Nós, jogadores, fomos tentando tirar isso. Diziam que o Beckham tinha sido contratado para vender camisa, mas ele é um grandessíssimo jogador. O Real Madrid é muito, muito grande, mas lá dentro faltava alguma coisa. Criavam muita polêmica. Não adianta você criar um monstro que depois não dá certo.

Mas aqui também existe cobrança para que vocês não sejam tão baladeiros, para o Ronaldo emagrecer...

O Ronaldo, gordo ou magro, careca ou cabeludo, é sempre o Ronaldo.

Mas o jogador brasileiro tem essa fama na Europa de ser baladeiro, de não gostar de treinar muito. Até na Turquia isso tem acontecido. Por quê?

Assim como falam da violência, da pobreza. Existem problemas, mas a imagem não pode ser só essa. Todo mundo gosta de estereotipar. No Brasil isso acontece também. Você mesmo, com essa carreira, ouve muita coisa. É uma questão de educação, de respeito. Quando ganha, pode sair; quando perde, não pode. Como se jornalista não fosse a balada!

Qual o melhor jogador com quem você atuou?

O Beckham.

Melhor que Ronaldo e Zidane?

Não. Eles são únicos. O Ronaldinho (Gaúcho) também. Nossa geração fez uma história bonita. Mas o Beckham é ótimo jogador.

O que acha quando culpam um jogador pela derrota? Em 1998 disseram que o Brasil perdeu porque o Ronaldo teve uma convulsão. Em 2006 foi o peso dele, ou você ajeitando o meião...

Ganhar sempre é muito complicado. E no dia seguinte todo mundo esquece o que você já ganhou. Em 1998 também reclamaram que eu chutei a bandeirinha. Chutei porque o juiz não viu que a bola não tinha saído. Ou a bicicleta que errei contra a Dinamarca. Ou essa história que inventaram sobre o meião. Eu estava onde tinha que estar. O Brasil não jogou bem? Então critica todo mundo, não precisa isolar um lance ou uma pessoa. O Parreira me cumprimentou porque consegui anular o Ribéry, que todo mundo dizia que era o jogador mais perigoso por ali. O Zidane desequilibrou. Ele até chegou ao nosso vestiário depois do jogo e me disse: "Desculpe pela temporada que fiz no Real Madrid. Mas o que eu não fiz lá eu fiz hoje aqui."

Que outros laterais vê na seleção? Não há um Maicon pela esquerda ainda, um jogador que saiba avançar e recuperar.

Eu espero que o André volte à seleção, que o Kléber volte. A não ser que eu volte...

Você quer voltar?

Eu já disse algumas vezes: eu não saí da seleção por ter perdido a Copa do Mundo ou por mau ambiente. Saí por causa de alguns jornalistas que quiseram acabar com minha carreira, inventando aquela história do meião. Não voltei para o Corinthians por causa da Copa do Mundo; voltei porque acabou meu ciclo europeu. Voltei para jogar pelo Corinthians, para ser campeão paulista, da Libertadores, brasileiro... Um dos três títulos vou ganhar, disso tenho certeza absoluta. Em três anos dá para ganhar uns quatro títulos pelo menos. Mas sei que se jogar bem posso voltar à seleção.