O diretor-geral da organização não governamental (ONG) Viva Rio, antropólogo Rubem César Fernandes, que está em Porto Príncipe desde quarta-feira, dia seguinte ao terremoto, disse neste sábado que a representação local da organização atende a cerca de mil desabrigados em suas instalações em Bel Air, na região central da capital haitiana. Segundo o antropólogo, a Viva Rio mantém há alguns anos um centro comunitário de grandes proporções, transformado em abrigo de refugiados, atendidos por um contingente aproximado de 400 pessoas, entre as quais três médicos e dez enfermeiros locais, nove brasileiros e sete noruegueses, inclusive engenheiros.

A dificuldade mais grave é o atendimento médico às vítimas do terremoto que recorrem ao Viva Rio em Bel Air, segundo Rubem César. "Porto Príncipe á uma cidade muito grande e por isso foram montados vários centros de atendimento emergencial. Eles funcionam independentes, em situação precária e sem muitos recursos."

O diretor da ONG criada no Rio de Janeiro em 1993 não tem previsão de volta para o Brasil e agora atravessa o Haiti por terra. Ele disse que o terremoto foi sentido em todo o país e que a área mais atingida foi mesmo a capital, onde estão concentrados os esforços mundiais de ajuda humanitária.

A Viva Rio criou escritório próprio no Haiti para ajudar a sociedade a enfrentar o crime organizado em gangues que assolam Porto Príncipe desde o fim da ditadura de François e Jean-Claude Duvalier, conhecidos como Papa Doc e Baby Doc, que comandaram o regime ditatorial entre a década de 50 e 1985.

François Duvalier criou uma guarda popularmente chamada de tonton macoutes (bichos papões), que aterrorizou os haitianos durante décadas de ditadura e depois se dividiu em vários grupos criminosos espalhados pelo país, em especial na capital. Esses grupos são uma das grandes preocupações das forças internacionais, porque podem se aproveitar do clima caótico resultante do terremoto para instalar o terror no Haiti.

Terremoto
Um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o Haiti nessa terça-feira, às 16h53 no horário local (19h53 em Brasília). Com epicentro a 15 km da capital, Porto Príncipe, segundo o Serviço Geológico Norte-Americano, o terremoto é considerado pelo órgão o mais forte a atingir o país nos últimos 200 anos.

Dezenas de prédios da capital caíram e deixaram moradores sob escombros. Importantes edificações foram atingidas, como prédios das Nações Unidas e do governo do país. Estimativas mais recentes do governo haitiano falam em mais de 200 mil mortos e 50 mil corpos já enterrados. O Haiti é o país mais pobre do continente americano.


Morte de brasileiros
A fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Zilda Arns, e militares brasileiros da missão de paz da ONU morreram durante o terremoto no Haiti.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, e comandantes do Exército chegaram na noite de quarta-feira à base brasileira no país para liderar os trabalhos do contingente militar brasileiro no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil anunciou que o país enviará até US$ 15 milhões para ajudar a reconstruir o país. Além dos recursos financeiros, o Brasil doará 28 t de alimentos e água para a população do país. A Força Aérea Brasileira (FAB) disponibilizou oito aeronaves de transporte para ajudar as vítimas.

O Brasil no Haiti
O Brasil chefia a missão de paz da ONU no país (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, ou Minustah, na sigla em francês), que conta com cerca de 7 mil integrantes. Segundo o Ministério da Defesa, 1.266 militares brasileiros servem na força. Ao todo, são 1.310 brasileiros no Haiti.

A missão de paz foi criada em 2004, depois que o então presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto durante uma rebelião. Além do prédio da ONU, o prédio da Embaixada Brasileira em Porto Príncipe também ficou danificado, mas segundo o governo, não há vítimas entre os funcionários brasileiros.