Por Goretti Brandão

Lá pela região de Senador Rui Palmeira, interior das Alagoas, numa daquelas estradas de barro, noite escura, deparei-me com um grupo de mulheres e crianças caminhantes. Isso é comum por ali. O sertanejo se aventura, anda quilômetros a fio, como se andasse sob a luz do sol. Protegidos pelo anonimato, uma condição do escuro, ouvem-se pedaços de conversa miúda e animada. Para onde irão essas figuras nordestinas?
 

Paro o carro e ofereço carona. O grupo animado vai para uma festa nas proximidades. Uma promessa será paga.
 

Faço questão de levá-los até o local. Avista-se de longe, pequenas luzes. Uma aqui, outra acolá. A paisagem do sertão na região do semi-árido, fora a novidade das antenas parabólicas e das motocicletas, (que substituíram os cavalos nos trabalhos das variadas atividades humanas), repete incansável, o cenário de mandacarus e xique-xiques, cachorros esquálidos, poeira e ainda, alguns bons costumes.
 

Sempre que vejo uma antena de televisão, imagino quais efeitos os ‘valores televisivos’, que as novelas – um dos exemplos -, podem exercer na vida simples dessa gente. Não sou contra a televisão, nem poderia ser. Comunicar, incluindo tudo o que a palavra representa, é minha paixão. Vale ressaltar. As contradições existirão sempre. Por isso, vai-não-vai, retorno aos filósofos da informação, Baudrillard, Pierre Lévi, e deles adiante, para encontrar possíveis respostas aos meus estranhamentos.
 

O progresso exige um ônus. Exige vários, essa é a verdade. Paga-se o preço para ocupar um lugar nesse estado de transcendências materiais, (Pelo menos para onde esse olhar está situado no momento em que escrevo), evidentemente. O cerne da questão é a própria contradição, como parte desse processo. Evolução e progresso é a mesma coisa ?. Esse questionamento fica para mais tarde...
 

Volto às sertanejas e suas crianças, à noite escura, à poeira. Há o lugar, há gente e há coisas, como possibilidades de romantização à vida. De uma estrada mais larga, para outra ainda mais estreita, novos caminhantes. Depois o terreiro, gambiarras para iluminá-lo, carrinhos cobertos de bugigangas para serem vendidas e uma banda de pífano que começou a tocar. A reza das mulheres entremeia e marca o tempo aonde com o auxílio dos presentes, o favor recebido por um é pago por todos. Belo exemplo de coletividade.
 

O pedinte da Graça estufa o peito, se apresenta no centro do terreiro, honrado e satisfeito, orgulhoso de ter alcançado do santo de sua devoção, aquilo que pediu. Durante toda a noite o pífano animará a festa, festejará o santo merecedor dela, na alegria das comadres, compadres, das crianças, de uma meia dúzia de cães magros e alguns gatos desconfiados. Coisa bonita de ser vista.
 

Os músicos se levantam e posam pra minha câmera, sem parar de tocar Pipoca Moderna. Tudo é alegria. A noite é a mais nordestina possível. Por todo lado, tem as sombras dos mandacarus, dos rasga-beiços, da caatingueira, do velame. Tem a casa de reboco, tem religiosidade, o matuto, tem o santo e a banda de pífano. Saio dali reconhecidamente sertaneja, nordestina da minha amada terra seca, convicta da Graça que recebi sem pedir: a de ser dentro do mundo, uma cidadã do semi-árido das Alagoas.